Trinta e quatro intelectuais israelitas dizem à Europa: não confundam críticas a Israel com anti-semitismo

Trinta e quatro intelectuais e artistas israelitas, incluindo historiadores e outros académicos, de universidades israelitas, europeias e norte-americanas, vários deles galardoados com o Prémio Israel – considerado a maior distinção cultural do Estado de Israel – tornaram pública uma carta aberta em que denunciam a campanha em curso na Europa para confundir com anti-semitismo as críticas ao Estado de Israel.

«Subscrevemos e apoiamos totalmente a luta intransigente da UE contra o anti-semitismo», afirmam, ressalvando: «Esta luta contra o anti-semitismo não deve ser instrumentalizada para impedir a crítica legítima à ocupação e às graves violações dos direitos humanos palestinos por Israel.»

Os subscritores da carta aberta alertam: «a definição [de anti-semitismo] pode ser perigosamente instrumentalizada para conferir a Israel imunidade contra as críticas por graves e generalizadas violações dos direitos humanos e do direito internacional […] Isso tem um efeito inibidor sobre qualquer crítica a Israel».

Leia a seguir o texto integral da carta e a lista de subscritores (tradução MPPM).


Dizemos à Europa: não confundam as críticas a Israel com o anti-semitismo

20 de Novembro de 2018

No contexto da sua Presidência da UE, o governo austríaco irá realizar no dia 21 de Novembro uma conferência de alto nível, intitulada «A Europa Além do Anti-Semitismo e do Anti-Sionismo — Assegurar a Vida Judaica na Europa».

Subscrevemos e apoiamos totalmente a luta intransigente da UE contra o anti-semitismo. A ascensão do anti-semitismo preocupa-nos. Como sabemos da história, muitas vezes tem sinalizado desastres futuros para toda a humanidade. A ascensão do anti-semitismo constitui uma ameaça real e deve ser uma importante preocupação na política europeia contemporânea.

Contudo, a UE também defende os direitos humanos e tem de protegê-los tão vigorosamente quanto combate o anti-semitismo. Esta luta contra o anti-semitismo não deve ser instrumentalizada para impedir a crítica legítima à ocupação e às graves violações dos direitos humanos palestinos por Israel.

O primeiro-ministro israelita, Netanyahu, deveria discursar na conferência na Áustria, antes de cancelar para estabilizar o seu governo. Trabalhou muito para confundir as críticas ao Estado de Israel com anti-semitismo.

Para nossa grande preocupação, vemos essa confusão também no anúncio oficial da conferência pelo governo austríaco. Diz ele: «Muitas vezes o anti-semitismo é expresso através de críticas exageradas e desproporcionadas ao Estado de Israel.»

Estas palavras ecoam a definição de anti-semitismo da International Holocaust Remembrance Alliance (IHRA) [Aliança Internacional para a Memória do Holocausto]. Vários exemplos de anti-semitismo contemporâneo anexos a esta definição dizem respeito a uma crítica dura a Israel. Como resultado, a definição pode ser perigosamente instrumentalizada para conferir a Israel imunidade contra as críticas por graves e generalizadas violações dos direitos humanos e do direito internacional — crítica que é considerada legítima quando dirigida a outros países. Isso tem um efeito inibidor sobre qualquer crítica a Israel.

Além disso, o anúncio da conferência identifica anti-sionismo com anti-semitismo. No entanto, o sionismo, como todos os outros movimentos judaicos modernos no século xx, foi duramente combatido por muitos judeus, bem como por não-judeus que não eram anti-semitas. Muitas vítimas do Holocausto opunham-se ao sionismo. Por outro lado, muitos anti-semitas apoiaram o sionismo. É absurdo e inadequado identificar anti-sionismo com anti-semitismo.

Também não devemos esquecer que o Estado de Israel tem sido uma potência ocupante há mais de 50 anos. Milhões de palestinos sob ocupação carecem de direitos básicos, liberdade e dignidade. Como a ocupação israelita se está agora a transformar em anexação, é essencial, mais do que nunca, que a Europa rejeite os esforços no sentido de restringir a liberdade de expressão e de silenciar as críticas a Israel com base no falso fundamento de as equiparar ao anti-semitismo.

A Europa também precisa de o fazer para a credibilidade e eficácia da sua luta contra o anti-semitismo. Alargar essa luta para proteger das críticas o Estado de Israel alimenta ideias falsas de que os judeus são iguais a Israel — e são portanto responsáveis pelo que Israel faz.

Como académicos israelitas, a maioria dos quais investiga e ensina história judaica, dizemos à Europa:

Lutem incansavelmente contra o anti-semitismo para proteger a vida judaica na Europa e permitir que ela prospere. Façam-no ao mesmo tempo que mantêm uma distinção clara entre a crítica ao Estado de Israel, por mais dura que seja, e o anti-semitismo. Não misturem anti-sionismo com anti-semitismo. E preservem a liberdade de expressão para aqueles que rejeitam a ocupação israelita e insistem que ela termine.

Subscritores:

Professor Gadi Algazi, Departamento de História, Universidade de Tel Aviv.
Dr. Yael Berda, Departamento de Sociologia e Antropologia, Universidade Hebraica de Jerusalém.
Professor Jose Brunner (jubilado), Instituto Cohn de História e Filosofia da Ciência e das Ideias e Faculdade Buchmann de Direito da Universidade de Tel Aviv. Ex-diretor do Instituto Minerva de História Alemã e supervisor académico fundador da primeira clínica jurídica de Israel para os direitos dos sobreviventes do Holocausto, Universidade de Tel Aviv.
Professor Alon Confino, Cadeira Pen Tishkach de Estudos sobre o Holocausto, Universidade de Massachusetts Amherst.
Professor Arie M. Dubnov, Cadeira Max Ticktin de Estudos de Israel, Departamento de História, Universidade George Washington.
Professora Rachel Elior, Professora John e Golda Cohen de Filosofia Judaica e Pensamento Mística Judaico, Universidade Hebraica de Jerusalém.
Professor David Enoch, Cadeira Rodney Blackman de Filosofia do Direito, Faculdade de Direito, Departamento de Filosofia, Universidade Hebraica de Jerusalém.
Dr. Yuval Eylon, Professor Sénior de Filosofia, Departamento de História, Filosofia e Estudos Judaicos, Universidade Aberta de Israel.
Professor Gideon Freudenthal (jubilado), Instituto Cohn de História e Filosofia da Ciência e Ideias, Universidade de Tel Aviv.
Dr. Amos Goldberg, ex-director do Departamento de História Judaica e Judaísmo Contemporâneo, Universidade Hebraica de Jerusalém.
Professor David Harel, Instituto Weizmann de Ciência; Vice-Presidente da Academia de Ciências e Humanidades de Israel; Prémio Israel (2004); Prémio EMET (2010).
Professor Hannan Hever, Departamento de Literatura Comparada e Programa de Estudos Judaicos, Universidade de Yale.
Professora Eva Illouz, Departamento de Sociologia, Universidade Hebraica de Jerusalém; ex-presidente da Academia Bezalel de Arte e Design, Jerusalém.
Daniel Karavan, escultor, criador do Memorial aos Sinti e Roma Vítimas do Nacional-Socialismo em Berlim (2012) e do Caminho dos Direitos Humanos no Germanisches Nationalmuseum em Nuremberga (1989-93); Prémio Israel (1977).
Professora Hannah Kasher (jubilada), Departamento de Pensamento Judaico, Universidade Bar-Ilan.
Professor Michael Keren (jubilado), Departamento de Economia, Universidade Hebraica de Jerusalém.
Professor Yehoshua Kolodny (jubilado), Instituto de Ciências da Terra, Universidade Hebraica de Jerusalém; Prémio Israel (2010).
Miki Kratsman, ex-chefe do Departamento de Fotografia da Academia Bezalel de Artes e Design; Prémio EMET (2011).
Nitzan Lebovic, Professor Associado, Cadeira Apter de Estudos do Holocausto e Valores Éticos, Universidade Lehigh.
Alex Levac, Prémio Israel (2005).
Dr.aAnat Matar, Departamento de Filosofia, Universidade de Tel Aviv.
Professor Paul Mendes-Flohr (jubilado), Departamento de Pensamento Judaico, Universidade Hebraica de Jerusalém.
Professor Jacob Metzer (jubilado), ex-presidente da Open University Israel; Professor Alexander Brody de História Económica, Universidade Hebraica de Jerusalém.
Michal Naaman, artista, Prémio Israel (2014).
Professor Yehuda Judd Ne'eman (jubilado), Faculdade de Artes, Universidade de Tel Aviv; Prémio Israel (2009).
Professora Dalia Ofer (jubilada), Professora Max e Rita Haber de Judaísmo Contemporâneo e Estudos do Holocausto, Instituto Avraham Harman de Judaísmo Contemporâneo, Universidade Hebraica de Jerusalém.
Professor Ishay Rosen-Zvi, director da secção do Talmude e da Antiguidade Tardia, Departamento de Filosofia, Universidade de Tel Aviv.
Professor David Shulman (jubilado), Departamento de Estudos Asiáticos, Universidade Hebraica de Jerusalém; Prémio EMET (2010); Prémio Israel (2016).
Dr. Dmitry Shumsky, Departamento de História Judaica e Judaísmo Contemporâneo, ex-director do Centro Bernard Cherrick para o Estudo do Sionismo, do Yishuv e do Estado de Israel, Universidade Hebraica de Jerusalém.
Professor Zeev Sternhell (jubilado), Departamento de Ciência Política, Universidade Hebraica de Jerusalém; Prémio Israel (2008).
Professor David Tartakover, Prémio Israel (2002).
Professora Idith Zertal, Universidade Hebraica de Jerusalém; Instituto de Estudos Judaicos da Universidade de Basileia; autora de «O Holocausto de Israel e a Política da Nacionalidade».
Professor Moshe Zimmerman (jubilado), ex-director do Centro Koebner de História Alemã, Universidade Hebraica de Jerusalém.
Professor Moshe Zuckermann (jubilado), Instituto Cohn de História e Filosofia da Ciência e das Ideias, Universidade de Tel Aviv.

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