«Palestina: Ocupação e Resistência» em debate na FCSH

Sessão AEFCSH 11.03.2023 - Guilherme Vaz, Dima Mohammed, Carlos Almeida, Abdeljelil Larbi

O MPPM promoveu ontem, terça-feira, um debate subordinado ao tema «Palestina: Ocupação e Resistência», que decorreu no espaço da Associação de Estudantes da NOVA – FCSH, entidade co-organizadora.

O debate contou com a participação de Guilherme Vaz, em representação da Associação; Abdeljelil Larbi, professor de língua e literatura árabe moderna na NOVA-FCSH; Dima Mohammed, investigadora coordenadora no IFILNOVA – ArgLab; e Carlos Almeida, investigador no Centro de História da Universidade de Lisboa e vice-presidente do MPPM.

Serviram de mote para o debate duas efemérides que se assinalaram recentemente. Em 9 de Abril de 1948, milícias sionistas assaltaram e massacraram os habitantes da aldeia de Deir Yassin, uma etapa do plano de limpeza étnica que acompanhou a criação do Estado de Israel e que se traduziu numa catástrofe (Nakba) para o povo palestino. O dia 9 de Abril é também o aniversário do nascimento, em 1936, de Ghassan Kanafani, que viria a tornar-se um escritor e activista político profundamente comprometido com a resistência palestina, sendo assassinado pela Mossad em 1972 em Beirute. Deir Yassin, por um lado, e Ghassan Kanafani por outro, ilustram bem as duas realidades que têm moldado o quotidiano do povo palestino nos últimos 75 anos: ocupação e resistência.

Guilherme Vaz abriu o período das intervenções, referindo que a AEFCSH acolhe com gosto este debate, já que está empenhada em acções que promovam a solidariedade e a paz, elemento constituinte da democracia portuguesa. «Abril abriu o direito à paz», afirmou. No final, viria reforçar esta ideia recordando o papel histórico das juventudes portuguesas na solidariedade com outros povos, nomeadamente com os submetidos ao domínio colonial português.

Carlos Almeida, na sua primeira intervenção, enquadrou historicamente os dois acontecimentos. O massacre de Deir Yassin fez parte da campanha das forças sionistas visando construir, através da expulsão dos palestinos, um Estado judaico etnicamente puro na parte do território da Palestina que lhe fora atribuído pelo plano de partilha da ONU. Que o massacre visava infundir o terror é ilustrado até pelo facto de os sionistas terem deliberadamente exagerado o número de vítimas. Ghassan Kanafani, nascido em Acre, foi também vítima da Nakba de 1948, tendo-se tornado refugiado com a sua família aos 12 anos. Aliando a criação literária e o compromisso político, afirmou Carlos Almeida, «recupera a voz da Nakba para a construção do futuro». Nakba que prossegue: desde o início deste ano, já uma centena de palestinos foram mortos pelas forças repressivas israelitas.

Abdeljelil Larbi abordou sobretudo a vertente literária da personalidade multifacetada de Ghassan Kanafani. O mais famoso escritor palestino, efectuou uma revolução na literatura de língua árabe da época, ao nível formal e de conteúdo. Kanafani escolheu a resistência cultural, desconstruindo a narrativa sionista, e representou literariamente os sofrimentos dos palestinos, «porque é a literatura que dura». A repercussão dos escritos de Kanafani terá sido, no entender de Abdeljalil Larbi, a principal razão para o seu assassinato pela Mossad. Assiste-se actualmente a um reavivar do interesse por Kanafani no mundo árabe, mas também em traduções em numerosas línguas (incluindo o português, no Brasil).

«Eu nasci refugiada, os meus pais nasceram refugiados», começou por afirmar Dima Mohammed. Os seus avós foram expulsos da sua aldeia em Maio de 1948, pouco depois do massacre de Deir Yassin. A narrativa sionista expressa-se também no apagamento da memória: a aldeia já não existe, no seu lugar há hoje um parque de campismo para israelitas amantes da natureza. Nos refugiados convivem o sofrimento e a resiliência; sem esquecer o sofrimento, precisam de manter a vida e conservar a esperança, afirmou Dima Mohammed, que realçou como é importante a consciência de que este sofrimento não tem uma causa natural e que há que procurar as suas causas. A resistência passa também por desconstruir o mito da «complexidade» da situação: o direito dos refugiados ao regresso, o direito à justiça, não é complexo. Dima Mohammed realçou ainda a importância do conhecimento directo da Palestina, nomeadamente realizando aí períodos de estudo através do programa Erasmus.

O contacto directo com a realidade dos palestinos foi igualmente salientado num apontamento final de Carlos Almeida, contrariando o objectivo do ocupante israelita de o isolar, numa prisão ou do mundo.

A sessão prolongou-se num animado período de perguntas e intervenções da assistência.

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