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Testemunho de José Neves

MILITANTE DE CAUSAS NOBRES

jos nevesDar o meu testemunho sobre o Dr. Silas Cerqueira é para mim uma enorme satisfação, aparentemente uma tarefa difícil, pois trata-se de abordar uma personalidade complexa. De semblante normalmente carregado, numa primeira impressão fica-se com a imagem de alguém com quem não seria fácil dialogar. Percepção errada, pois Silas era um homem de diálogo, convívio e debate pelas suas convicções. E entre a defesa dos valores por que se debatia, uma nos agregava com forte sentimento de solidariedade: a causa da emancipação da Palestina.

De facto, foi no contexto desta nobre causa da defesa dos direitos do povo palestino que tive oportunidade de o conhecer. Foi em 1979. Silas Cerqueira, dirigente do Conselho Português para a Paz e Cooperação (CPPC), conduziu, em nome desta organização, um evento internacional de enormes repercussões: a «Conferência Mundial de Solidariedade com o Povo Árabe e a sua Causa Central: a Palestina», realizada em Lisboa, com a presença do legítimo representante do povo palestino, a OLP, cuja delegação foi encimada pelo seu Presidente Yasser Arafat. Foi a primeira vez que esta personalidade esteve na Europa Ocidental, o que teve um enorme impacto a nível mundial, quebrando o isolamento da Palestina, contribuindo assim para uma nova visão da situação no Médio Oriente. Com efeito, a Conferência, promovida pelo Congresso do Povo Árabe e um Comité Internacional com representantes dos continentes das Américas, Europa, Ásia e África, com a duração de quase uma semana, atraiu as atenções da imprensa mundial, representada por largas dezenas de jornalistas.

E todo este arrojado e inédito cometimento, com comissões temáticas funcionando em simultâneo e por vários dias, deve-se, em grande parte, à maestria de Silas Cerqueira, que dinamizou e coordenou a realização da Conferência Mundial, congregando em Lisboa organizações e personalidades solidárias com o mártir povo da Palestina. Estive presente neste importante areópago internacional integrando a comissão que representou o Partido Socialista, circunstância que me proporcionou conhecer Silas Cerqueira e ter conhecimento da sua capacidade de organização e coordenação de um evento tão importante e complexo.

Como dirigente do CPPC, a sua vocação internacionalista e pela Paz levou-o a promover outras iniciativas de solidariedade com povos em luta pelos seus direitos.

Porém, o nosso relacionamento pessoal iniciou-se em 2005 por ocasião de outra feliz iniciativa individual do incansável Silas. Novamente de apoio solidário ao povo da Palestina, mas agora no âmbito da sociedade portuguesa. Depois de porfiados esforços constitui-se a associação «Movimento pelos Direitos do Povo Palestino e pela paz no Médio Oriente» (MPPM), tendo entre os seus fundadores membros de partidos de esquerda e personalidades diversificadas de instituições e da Igreja Católica, o que foi possível devido ao seu espírito congregador de vontades. Como Coordenador da Comissão Executiva os seus persistentes esforços conduziram à estruturação do MPPM, e assim constituiu-se em associação sem fins lucrativos e prosseguiu os objectivos estatutários de divulgação e promoção de informações da situação política na Palestina e de solidariedade com o seu povo.

No que respeita às relações internacionais, que assumiu como Secretário desta área em acumulação de funções, os seus contactos privilegiados com instituições e personalidades a nível mundial e conhecimentos adquiridos pela sua participação em conferências e simpósios internacionais proporcionaram a vinda a Portugal de diversas individualidades, incluindo uma delegação das Nações Unidas, para participarem em colóquios e conferências promovidos pelo Movimento. O reputado prestígio de Silas Cerqueira foi igualmente decisivo para o competente comité das Nações Unidas proceder à acreditação do MPPM como «Organização Não Governamental».

Como homem público foi um combatente antifascista e anticolonialista, lutador pela cooperação e pela Paz entre os povos. Na sua vida privada foi pessoa íntegra e humana, leal aos amigos com quem convivia, e quando enfermos não deixava de os visitar ao hospital.

Não poderei deixar igualmente de testemunhar a dedicação e o carinho enternecedor com que cuidava de sua esposa, Antónia Lapa, a sua Toninha, como afectuosamente a tratava. Companheiros de uma vida, comungando dos mesmos ideais, foram ambos presos na juventude pelos algozes da ditadura. Conheci a Dr.ª Antónia Lapa já num período em que a sua saúde estava bastante degradada e tive oportunidade de observar os esforços e o desvelo com que Silas tratava a sua Toninha. Nunca vos esquecerei!

José Neves

 
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