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Testemunho de Isabel Allegro de Magalhães

IN MEMORIAM

isabel allegro magalhesSilas Cerqueira foi e, na memória de um grande número de pessoas, em Portugal e noutros países, continuará a ser, um homem grande, com a alma à dimensão do mundo.

No sentido excessivo que o dar a própria vida tem, Silas deu de facto a sua vida por um amplo ideal: o de uma autêntica solidariedade entre os humanos sobre a Terra. Era um militante nato, por uma grande causa. Cedo no seu percurso, encontrou no Partido Comunista o enquadramento certo para a sua forma de ver a Vida e a História. E aderiu de corpo inteiro até ao fim, nunca brincando em serviço. Com saúde e sem ela, persistia, e perseguia o que entendia ser necessário fazer.

Uma das suas lutas, e nos últimos largos anos do seu percurso seguramente a luta central, foi a de reunir forças dentro e fora do país para uma pressão internacional eficaz em ordem à libertação da Palestina. Pressão para que fossem finalmente cumpridas as decisões tomadas pelas Nações Unidas quanto à existência de dois Estados soberanos no Médio Oriente: Palestina e Israel. É que, apesar da multiplicação de declarações da ONU quanto a essa decisão inicial e outras posteriores que a completavam, com uma definição clara dos territórios de cada país, nada disso foi ainda, como se sabe, posto em prática. Perante o sofrimento do povo palestino, o que há é um escandaloso silêncio e pactuação internacionais.

Ora no contexto dessa necessidade gritante, o Silas veio a minha casa convidar-me para constituir, com ele e outras pessoas, um movimento de apoio à causa palestina. (Curiosamente, eu tinha estado ligada à mesma causa nos anos 80 nos EUA e depois cá, no meu regresso a Lisboa.)

Aderi, claro, sem reticências, nem sabendo que me estava reservada, a mim conjuntamente com Mário Ruivo, a presidência do Movimento para a Libertação da Palestina e a Paz no Médio Oriente — o MPPM —, nascido meses depois e que é hoje uma presença significativa, bem audível, na sociedade portuguesa.

Sempre gostei do Silas Cerqueira. Sempre o admirei, na paciência e habilidade com que trabalhava tácticas em ordem a uma estratégia final, na cordialidade para com quem pensava em muita coisa diferentemente dele, na intenção de reunir forças diversas para um mesmo fim, na firmeza com que se mantinha em linha sempre que era necessário. Se algum defeito tinha, era consequência de uma qualidade: a insistência e persistência, quase teimosia, sempre levadas ao limite. E porquê? Por tratar-se daquilo em que a fundo acreditava.

Era também, sem dúvida, quem na sociedade portuguesa melhor conhecia a história da Palestina e os contextos concretos da violência da ocupação a que os sucessivos governos de Israel (sem o consentimento de muitos judeus…) sujeitaram — e continuam a sujeitar — todo um povo.

Mas, convivente com esta face do Silas, uma outra completa de forma admirável, belíssima, a pessoa que era: a expressão concreta, mesmo em tempos difíceis, do amor e da imensa ternura que manteve pela Antónia, sua Mulher, a quem acompanhou até ao fim com um desvelo palpável para todos os que com o Silas convivemos de perto. Não falhava a nenhum dos seus compromissos, tal como não falhava igualmente à sua intensa presença a Antónia — cirurgiã em Paris e que no final dos seus dias teve uma doença neurológica grave que exigiu um contínuo acompanhamento. Silas sempre lhe deu todo o apoio, atenção e carinho.

Neste contexto, lembro-me do que escreve o filósofo francês Alain Badiou no seu Éloge de l’amour: «No conteúdo da palavra “comunismo” não há uma relação imediata com o amor. No entanto, essa palavra traz, também para o amor, novas condições de possibilidade.»

Nos últimos anos, depois de ter deixado a co-presidência do MPPM, quase não mais vi o Silas. Recordarei sempre com alegria a frontalidade e a bondade que o caracterizavam.

Isabel Allegro de Magalhães

 
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