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Testemunho de Miguel Urbano Rodrigues

SILAS, COMUNISTA E IDEÓLOGO

miguel urbano rodriguesContactei Silas Cerqueira pela primeira vez no início dos anos 70.

Escrevi-lhe pelo Portugal Democrático, que era o órgão dos antifascistas portugueses da América. Ele desenvolvia então um importante trabalho em Paris como ativista revolucionário.

Voltei a encontrá-lo em Portugal após o 25 de Abril. Mas somente anos depois a nossa relação evoluiu da camaradagem para a amizade.

Em Praga, na Assembleia do Conselho Mundial da Paz, tivemos a oportunidade de falar durante horas sobre múltiplos temas.

Apercebi-me do seu grande prestígio internacional e de uma cultura humanista pouco comum.

Nos anos 90 coincidimos duas vezes em Joanesburgo, durante o Congresso do ANC e nas eleições que levaram Mandela à Presidência. Em ambas as ocasiões ajudou-me a compreender o complexo processo de transição da África do Sul. Eu era então deputado e representava o Partido Comunista Português. Recordo que alugámos um carro para acompanhar a votação no Soweto e em Alexandra. Graças a Silas, conheci e entrevistei o secretário-geral do Partido Comunista da África do Sul.

Inesperadamente, encontrámo-nos em Nova York. Eu representava o PCP nos debates sobre Timor Leste no Conselho Económico e Social das Nações Unidas. Silas Cerqueira, convidado por uma organização internacional, tinha pronunciado na cidade uma conferência.

Foram dias inesquecíveis para mim. Silas, apesar do seu carácter reservado, contou-me que fora nos Estados Unidos que se havia tornado comunista, paradoxalmente na Universidade de Columbia, onde estava Teologia. O contacto com marxistas americanos marcou tão profundamente o jovem português que desistiu do sacerdócio. Ali teve início a sua fulgurante carreira de revolucionário profissional.

Em Paris licenciou-se em Ciências Políticas e, como militante do PCP, desempenhou no exílio importantes tarefas.

No Conselho Mundial da Paz, onde representou Portugal durante muitos anos, o presidente Romesh Chandra tinha em grande apreço o seu talento e firmeza na defesa das grandes causas da humanidade.

Em Portugal foi um dos principais organizadores da Conferência de Solidariedade com o Povo Árabe e a Palestina, a Conferência Internacional de Solidariedade com o Estados da Linha da Frente, em l983, e a Conferência Internacional de Solidariedade com a Revolução Sandinista, em 1989.

Silas — que dividia o seu tempo entre Portugal e a França — foi professor na Universidade de Braga.

Ninguém contribuiu tanto como ele em Portugal para a causa da solidariedade com a Palestina martirizada.

Comunista exemplar, revolucionário ético, modesto, desinteressado de bens materiais, viveu e morreu na fronteira da pobreza.

Na minha opinião, Silas Cerqueira, destacada personalidade das lutas pela Paz, foi — creio não exagerar — uma das melhores cabeças políticas de Portugal nos últimos cinquenta anos.

Miguel Urbano Rodrigues

 
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