Home Opinião Nabil Shaath entrevistado por Maria João Guimarães para o Público
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“Resistência pacífica está a substituir o diálogo ou a luta armada na Palestina” (*)

nabil shaath - publico 12 fev 2013O deputado palestiniano Nabil Shaath veio a Lisboa para uma audiência no Parlamento e uma conferência na Universidade Nova de Lisboa. Na AR, considerou os partidos muito “à esquerda” (querendo dizer que sentiu apoio para a Palestina; afinal, Portugal disse que votaria “sim” a um Estado palestiniano observador nas Nações Unidas). Falou da mudança de estratégia em relação a Israel, antecipou acções criativas, e sublinhou a importância de estar na ONU.

Os palestinianos vão mesmo recorrer ao Tribunal Penal Internacional por causa dos colonatos?

O Tribunal Penal Internacional é a única organização internacional que não precisa do Conselho de Segurança [em que os EUA vetam resoluções vistas como prejudiciais a Israel]. E é por isso que israelitas, e americanos, estão a usar todas as suas ameaças para nos impedir — não podem usar nada legal, porque podemos recorrer directamente ao tribunal ao termos sido reconhecidos como Estado-membro [observador] na ONU. Ainda não o fizemos, estamos a preparar-nos. Não é um processo automático, é preciso ir à assembleia geral do tribunal, assinar o Tratado de Roma, em que se diz também que não se cometeu crimes contra a humanidade. Uma vez assinado o Tratado de Roma, pode então recorrer-se ao tribunal.

Os palestinianos têm realizado algumas acções de protesto de grande impacte — a ida dos palestinianos da Síria e do Líbano até à fronteira, o acampamento num local onde se prevê um novo colonato… É de esperar mais acções destas?

Sim, claro. A não-violência não tem fim, é uma questão de desafio por meios criativos que são surpreendentes e não esperados pelos israelitas. O único limite é a criatividade da mente humana.

As eleições israelitas mudaram alguma coisa?

É um duro golpe para o ego de [Benjamim] Netanyahu. Ele agia como se fosse o rei de Israel, podia fazer tudo e não tinha de prestar contas a ninguém, porque tinha sido eleito. Foi para eleições pensando que ia aumentar a sua maioria, e diminuiu. Há Yair Lapid, que ganhou força, mas não houve a emergência de um verdadeiro campo da paz. Há uma coisa: Netanyahu está mais vulnerável, mais pressionável. Se os EUA ou a União Europeia quisessem…

Diz-se que se o segundo mandato de um Presidente dos EUA é aquele em que resolve questões espinhosas porque já não vai arriscar a reeleição. Mas Barack Obama não parece prestes a dedicar-se ao conflito israelo-palestiniano.

Sou céptico. Obama tem de fazer cálculos. Está numa situação em que não tem o Congresso e tem uma pequena maioria no Senado. Por isso, ele terá de fazer o que os americanos chamam horsetrading. A questão é: do que é que ele precisa, e o que tem de dar. Precisa de uma lei de imigração que compense os latinos que votaram nele. Precisa de uma lei de controlo de armas porque prometeu. Ainda há a recuperação económica. E para cada um destes ele tem de fazer trocas. Iria ele desistir de um destes para pressionar Netanyahu? Não digo que não, mas não sei.

E as mudanças na região — o novo Egipto, etc.— como influenciam a questão palestiniana?

Eu fui a pessoa mais feliz do mundo quando aconteceu. Vivi no Egipto muito tempo, e vi a natureza progressista, não violenta, do que aconteceu e pensei que poderia fazer com que se repetisse o que aconteceu na América Latina; quando os países se viram livres dos ditadores, ficaram mais independentes dos EUA e mais apoiantes da Palestina. Mas a Primavera ainda vai demorar muito a chegar a uma nova estabilidade democrática. E temos concorrência, os islamitas. Conclusão: No sentido estratégico penso que vai fazer uma diferença, e esta será a nosso favor. Porque tal como aconteceu na América Latina, quando as pessoas sofrem com tiranos tornam-se sensíveis a questões de direitos humanos. E os palestinianos são um claro caso de abuso de direitos humanos. Mas a curto prazo há muita incerteza.

O Egipto tem tido um papel importante nas negociações interpalestinianas. Há uma nova tentativa de acordo, depois de muitas, falhadas. Quão perto, ou longe, estará um entendimento?

Penso que muito perto. Penso que mais perto do que no caso dos próprios egípcios [risos]. Por várias razões. A primeira: o falhanço tanto da confrontação militar de Israel como das negociações. Tanto a Autoridade Palestiniana como o Hamas se aperceberam de que precisamos de ser pelo menos uma frente unida para ter resultados. Discordamos dos métodos — nenhum resultou.

Se ambos os métodos falharam, o que há é uma terceira via?

Não é uma terceira via, é uma via de resistência popular juntamente com activismo internacional. Foi o que fizeram os sul-africanos, os indianos… Não luta armada... mas também não entrar em negociações a não ser que o ocupante diga que vai acabar a ocupação, e que nos vamos sentar para discutir como. Pensámos que isso tinha acontecido em 1992. Agora voltámos à resistência popular, não violenta, juntamente com activismo internacional, e esperamos que isto seja o substituto para a luta armada ou negociações. Por agora.

Concorda com a ideia de que se está a fechar a janela de oportunidade para uma solução de dois Estados?

Está a fechar, mas não é impossível. Especialmente com a decisão das Nações Unidas [declarar a Palestina Estado observador]. O que a ONU diz a Israel é: este Estado não é vosso, há-de chegar uma altura em que vão ter de sair.

(*) Entrevista de Nabil Shaath pela jornalista Maria João Guimarães publicada no Público de 12 de Fevereiro de 2013. Nabil Shaath, Membro do Parlamento palestiniano, foi negociador no processo de paz com o Estado de Israel, número dois do executivo da Autoridade Palestiniana e ministro dos Negócios Estrangeiros

 
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