Home Jornadas Solidariedade A Existência dos Palestinos Enquanto Povo Está Ameaçada
PDF Versão para impressão Enviar por E-mail

A EXISTÊNCIA DOS PALESTINOS ENQUANTO POVO ESTÁ AMEAÇADA

 

Embaixadora Randa Nabulsi

 

“Terra das mensagens divinas reveladas à humanidade, a Palestina é o país natal do povo árabe palestino. Foi aqui que ele cresceu, se desenvolveu e se expandiu. A sua existência nacional e humana afirmou-se aqui numa relação orgânica ininterrupta e inalterada entre o povo, a sua terra e a sua história.

Continuadamente enraizado no seu espaço, o povo árabe palestino forjou a sua identidade nacional e ergueu-se, pela sua tenacidade, a defendê-la até ao nível do impossível. Apesar da fascinação suscitada por esta antiga terra e pela sua posição crucial na charneira das civilizações e das potências, apesar da cobiça, das ambições e das invasões que impediram o povo árabe palestino de realizar a sua independência política, o apego deste povo à sua terra imprimiu todavia ao país a sua identidade e ao povo o seu carácter nacional.”

(Da Declaração de Independência do Estado da Palestina, de 15 de Novembro de 1988)

Embaixadora Randa Nabulsi na Sessão de Solidariedade com o Povo da Palestina em 18 de Novembro de 2008Um povo, qualquer povo, não é apenas um conjunto de pessoas mas o produto de sucessivas gerações, o das suas preocupações e das aspirações e da sua contribuição para a construção da civilização humana. Mas o Povo Palestino enfrenta desde há décadas uma guerra não apenas de bombas mas um ataque à sua própria existência como povo.

Foi decidido organizar esta Semana da Palestina no mês de Novembro porque neste mês se comemoram diversas datas que marcaram vários acontecimentos no passado e no presente do Povo Palestino.

Em 2 de Novembro de 1917, através da Declaração Balfour, este diplomata propôs o território da Palestina, que obviamente não lhe pertencia, a Lord Rotschild, para aí colocar judeus de todo o mundo em substituição dos habitantes palestinos, em consequência do que foram estes objecto de uma limpeza étnica, um autêntico genocídio que conduziu à Nakba, a grande catástrofe de 1948, que obrigou mais de dois terços dos palestinos a abandonar as suas terras e passar a viver em campos de refugiados em situações desumanas.

Em 11 de Novembro de 2004, morreu o líder Yasser Arafat, cuja kufia se tornou um símbolo da Palestina em todo o mundo, e que foi um incansável lutador quer na frente de batalha, quer nas difíceis negociações políticas que enfrentou ao longo da sua vida. Arafat, que morreu ao fim de dois anos de um cerco do exército israelita de Ariel Sharon à Muqqata, as instalações da Autoridade Palestina em Ramallah (que ficaram quase totalmente destruídas), perante o silêncio da comunidade internacional. Foi um crime que provocou a maior consternação no coração de todos os palestinos.

Em 15 de Novembro de 1988, numa reunião do Conselho Nacional Palestino realizada em Argel, foi proclamada a Declaração de Independência da Palestina, que cria um Estado independente e democrático, com Jerusalém como capital, assegurando o direito do povo palestino a viver na sua terra como todos os outros povos, reconhecendo uma especial importância aos direitos da mulher e comprometendo-se a respeitar os tratados da Liga Árabe, das Nações Unidas e a Declaração Universal dos Direitos do Homem.

Em 29 de Novembro de 1947, foi aprovada a Resolução 181 das Nações Unidas, cujos termos aliás nunca foram cumpridos, e essa data passou a ser evocada anualmente como Dia Internacional de Solidariedade com o Povo Palestino. A estabilidade da região nunca será possível sem que sejam reconhecidos os direitos legítimos do Povo Palestino.

Apesar dos constrangimentos impostos pelo ocupante, mantém-se viva a memória do povo palestino, ainda que envolta pelo sofrimento mas demonstrando a capacidade de resistência e o sentimento de esperança. Só o facto de se tratar de um povo magnífico permitiu que conservasse a sua identidade, e deste povo saíram muitos poetas, escritores, artistas, intelectuais, cineastas e dramaturgos.

Nesta Semana da Palestina temos a satisfação de apresentar três personalidades palestinas que obtiveram reconhecimento em todo o mundo:

- Edward Saïd, filho de Jerusalém, filólogo e ensaísta, cuja naturalidade palestina não impediu a sua projecção internacional e que é autor de numerosas obras, algumas polémicas, como Orientalismo, Cultura e Imperialismo, Out of Place ou The Question of Palestine, livro onde manifesta a sua oposição aos Acordos de Oslo;

- Ismaïl Shamut, filho de Al-Lad, pintor, que foi obrigado ao exílio, e que nas suas obras retrata as preocupações da sua pátria e da humanidade em geral;

- Mahmud Darwich, filho Al-Birwah (aldeia que foi completamente destruída em 1948), poeta, ex-membro do Partido Comunista de Israel e do Comité Executivo da Organização de Libertação da Palestina. Os poemas de Darwich foram um farol que iluminou o povo palestino e contam-se entre os que mais circularam pelas mãos dos intelectuais e políticos palestinos. A sua audiência ultrapassa a de qualquer político no mundo árabe. Publicou 24 obras e está traduzido em mais de 40 línguas.

E porque somos um povo que apesar de crescer com sofrimento consegue manter a sua alegria, apresentaremos durante esta Semana da Palestina o grupo de canto e de dança popular Wishah, num espectáculo que terá lugar na Aula Magna da Reitoria da Universidade de Lisboa no próximo dia 3 de Dezembro. Haverá também a projecção de um filme, uma exposição de pintura e um jantar típico da cozinha palestina.

Espero que este programa consiga apresentar alguns aspectos deste povo que, como escreveu Mahmud Darwich, “ama a vida quando pode”.

 

Intervenção proferida em 18 de Novembro de 2008 na Sessão Pública de Solidariedade com o Povo Palestino em Luta por uma Independência Soberana e uma Paz Justa, organizada pelo MPPM na Casa do Alentejo, em Lisboa. Tradução do original árabe por Abdeljelil Larbi e Júlio de Magalhães.

A Embaixadora Randa Nabulsi é Delegada-Geral da Palestina em Portugal

 
Desenvolvimento: Criações Digitais, Lda  |   Serviços:  Impressão digital  |  Webmarketing