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UM ERRO NUNCA É CORRIGIDO PELA ADIÇÃO DE OUTRO

 

Frei Bento Domingues, o.p.

 

Para entender o presente, em muitos casos, é preciso recuar no tempo, sobretudo quando as relações entre povos se alimentam de memórias quase sempre distorcidas. Não vou recuar até aos tempos bíblicos, até porque, como já está estudado, a fidelidade destes à história também não é a sua melhor característica. Algumas referências mais recentes são indispensáveis.

1. O escritor austríaco de origem judaica, Theodor Herzl organizou, em Basileia – Suíça (Agosto de 1897) – o primeiro congresso sionista que aprova a formação de um Estado judaico na Palestina.

2. No início do século XX, já existiam na Palestina pequenas comunidades israelitas, vivendo no meio da população predominantemente árabe. A partir de então, novos núcleos começaram a ser instalados. Durante a Primeira Guerra Mundial, a Turquia lutou ao lado da Alemanha e, derrotada, viu-se privada de todas as suas possessões no mundo árabe.

3. Com a retirada dos turcos, a Palestina é ocupada pelo Reino Unido. Em 1917, o chanceler britânico, Arthur Balfour, declara o apoio do seu país ao estabelecimento de um lar nacional dos judeus na Palestina, sob a condição de serem respeitados os direitos das comunidades não judaicas ali existentes.

Frei Bento Domingues na Sessão de Solidariedade com o Povo Palestino em 18 de Novembro de 2008É importante não esquecer o comentário de Edward Said, no seu livro, The Question of Palestine, acerca dessa declaração. Uso a tradução brasileira: "O que é importante a respeito da declaração é que, em primeiro lugar, durante muito tempo ela foi a base legal para as reivindicações sionistas em relação à Palestina e, em segundo lugar, e mais importante para os nossos objetivos aqui, que foi uma declaração cuja força só pode ser avaliada quando as realidades demográfica e humana da Palestina ficaram claras na mente. Isto é, a declaração foi feita (a) por um poder europeu, (b) a respeito de um território não-europeu, (c) num claro desrespeito à presença e aos desejos da população nativa residente no território e (d) tomou a forma de uma promessa sobre este mesmo território por um outro grupo estrangeiro, a fim de que esse grupo estrangeiro pudesse, literalmente, fazer desse território uma nação para o povo judeu."

A "Declaração Balfour" foi interpretada pelos líderes sionistas como um apoio à criação de um Estado judeu soberano e tornou-se a base do apoio internacional para a formação do moderno Estado de Israel. Nas décadas que se seguiram, dezenas de milhares de judeus fixaram-se na Palestina, em sua maioria oriundos da Europa, movidos pelo ideal do sionismo.

4. Voltando à cronologia: três anos mais tarde (1920), o Reino Unido recebe um mandato da Liga das Nações para administrar a Palestina.

5. Encerrado o conflito da Segunda Guerra Mundial, os ingleses retiram-se e delegam à ONU a tarefa de solucionar os problemas da região. Sem consulta prévia aos árabes palestinos, a 29 de Novembro de 1947, a ONU votou a favor da divisão da Palestina em dois Estados, mediante a Resolução 181: um para os judeus, outro para os árabes palestinos. Estes rejeitam esse plano. Desde 1947 até à actualidade, as Nações Unidas emitiram 249 resoluções a favor da causa palestina. Ao longo dos anos, houve 81 vetos norte-americanos no Conselho de Segurança, o que permitiu a Israel uma liberdade de actuação à qual tudo é permitido, mesmo os maiores crimes.

6. A 14 de Maio de 1948 é proclamado o Estado de Israel, que tem David Bem-Gurion como primeiro-ministro que declara:

«Nós – membros do Conselho Nacional, representantes do povo judeu na Palestina e do Movimento sionista mundial – estamos reunidos em assembleia extraordinária, neste dia, que põe termo ao mandato britânico na Palestina. É em virtude dos direitos históricos e naturais do povo judeu e da resolução da assembleia das Nações Unidas que proclamamos, aqui, a criação de um Estado judaico na Palestina, que se chamará, doravante, Medinat Israël (Estado de Israel).

7. Os países árabes enviam tropas para impedir esta criação. A guerra termina em Janeiro de 1949 com a vitória de Israel que passa a controlar 75% do território da Palestina, um terço mais do que o determinado pela ONU. O restante da área da Cisjordânia é incorporado à Jordânia. Intimidados, cerca de 800 mil árabes fogem.

8. Em 1956, Israel aproveita a crise do canal de Suez e alia-se à França e ao Reino Unido para atacar o Egipto na península do Sinai e na Faixa de Gaza. Por intervenção da ONU e sob pressão dos EUA e da URSS, as tropas israelenses retiram-se da região.

9. Em 1964, uma reunião de chefes de Estado árabes, no Cairo, cria a Organização para a Libertação da Palestina (OLP).

10. A 5 de Junho de 1967, Israel ataca o Egipto, a Síria e a Jordânia. Esta Guerra dos Seis Dias termina a 10 de Junho com a vitória de Israel e a conquista do Sinai, da Faixa de Gaza, da Cisjordânia, das Colinas de Golã (na Síria) e da zona oriental de Jerusalém, que é imediatamente anexada ao Estado israelense.

11. A acção palestina contra Israel intensifica-se a partir da eleição para a presidência da OLP, em 1969, de Yasser Arafat, chefe da organização guerrilheira Al Fatah. Em represália, a aviação israelense faz constantes bombardeios na Síria e no Líbano, onde a OLP mantém bases militares.

12. A 6 de Outubro de 1973, rebenta uma nova guerra. É no dia do feriado judaico de Yom Kipur (Dia do Perdão). Num ataque surpresa, tropas do Egipto e da Síria avançam no Sinai e em Golã. Dias depois, são repelidas.

13. Os EUA e a URSS obrigam Israel a interromper a contra-ofensiva. Os árabes descobrem no petróleo uma arma de guerra: usando a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP), boicotam o fornecimento aos países que apoiam Israel e provocam o pânico mundial com o aumento do preço dos seus derivados.

14. Em Maio de 1977, a coligação liderada pelo LIKUD (Partido Conservador) ganha as eleições em Israel, depois de três décadas de hegemonia trabalhista. O novo primeiro ministro, Menachem BEGIN, estimula a instalação de colonos israelenses nos territórios árabes ocupados durante a Guerra dos Seis Dias.

15. Em Novembro de 1977, o presidente egípcio, Anuar Sadat, faz uma visita a Jerusalém, o que é visto como tácito reconhecimento do Estado de Israel. A iniciativa abre caminho para os acordos de Camp David, nos EUA (1978-1979), assinados por Begin e Sadat, com a mediação do presidente norte-americano Jimmy Carter.

16. Em 1982, Israel inicia a retirada do Sinai que é devolvido ao Egipto. O mundo árabe repudia os acordos de Camp David e expulsa o Egipto da Liga Árabe.

17. A 6 de Junho de 1982, o exército israelense invade o Líbano, obrigando os combatentes palestinos a abandonar o país.

18. Em Setembro (1982) acontecem os massacres de Sabra e Chatila: entre 700 e 2000 civis palestinos e árabes (estimativas incertas) são massacrados nos arredores de Beirute pelas milícias cristãs, enquanto as tropas israelenses cercam os campos.

19. Em 1985, o exército israelense abandona o Líbano com excepção de 12 km a sul do país.

20. A 9 de Dezembro de 1987, desencadeia-se a Primeira Intifada (“revolta popular”), vasto levantamento que atingirá toda a sociedade palestina na Cisjordânia e em Gaza.

21. A 30 de Julho de 1988, o rei Hussein da Jordânia renuncia, oficialmente, à reivindicação da margem ocidental do rio Jordão. Em Novembro, a OLP proclama o nascimento do Estado da Palestina, com Jerusalém por capital, na base da Resolução 181 da ONU de 1947. Desta maneira, a OLP reconhece implicitamente o Estado de Israel. No entanto, nasce o Hamas, movimento islamita que defende a destruição de Israel.

22. Na Primavera de 1993, começam as negociações oficiais paralelas conduzidas por universitários israelenses e palestinos que conduzirão aos acordos de Oslo.

23, A 13 de Setembro de 1993, acontece, em Washington, o aperto de mão entre Yasser Arafat e Yitzhak Rabin e a assinatura da declaração de princípio sobre arranjos para a autonomia. O texto está fundado num preâmbulo essencial: o reconhecimento mútuo das duas partes. Nascimento de uma Autoridade Palestina. Tanto o Hamas como os judeus ultra-nacionalistas opõem-se aos termos do acordo.

24. Em 1994, depois de 27 anos de exílio, Arafat retorna à Palestina.

25. Em 1995: Acordo entre Israel e a OLP para conceder autonomia (mas não soberania) a toda a Palestina, em prazo ainda indeterminado. A 4 de Novembro de 1995, Yitzhak Rabin é assassinado.

26. Em Janeiro de 1996, Arafat é eleito presidente da Autoridade Palestina.

27. Em Julho de 2000, fracasso da cimeira de Camp David. Fim de Setembro, começo da Segunda Intifada.

28. A 11 de Novembro de 2004, morre Yasser Arafat. Mahmoud Abbas sucede-lhe em Janeiro de 2005.

29. A 20 de Julho de 2005, evacuação das colónias judaicas de Gaza e do norte da Cisjordânia.

30. A 25 de Janeiro de 2006, vitória avassaladora do Hamas nas eleições legislativas. Luta política entre os membros do Hamas e do Fatah que não conseguem entender-se para formar um governo de coligação. Os países ocidentais congelam as suas ajudas financeiras.

31. Junho 2007: o Hamas toma o poder pelas armas em Gaza. Os israelenses replicam militarmente e submetem Gaza a um bloqueio económico total.

32. Novembro 2007: relançamento das negociações israel-árabes, em Annapolis sob a égide dos EUA, a fim de se chegar à assinatura de um Acordo de Paz incluindo a criação de um Estado palestino até finais de 2008.

33. De 26 de Fevereiro a 3 de Março (2008): Raids israelenses em Gaza, em resposta aos tiros de roquetes do Hamas, visando Israel. A 4 de Fevereiro e a 6 de Março, dois atentados-suicidas em Jerusalém (o primeiro é reivindicado pelo Hamas).

Esta cronologia, cheia de lacunas e pouco contextualizada, pretende, apenas, verificar o princípio aristotélico: um pequeno erro no começo de um processo pode acabar em monstruosidades. O que devia ser o culto de amizade entre povos transformou-se num ódio que não pode favorecer processos de paz. A Terra Santa é, afinal, o culto idolátrico da terra disputada, um barril de pólvora que pode ser incendiado a qualquer momento e com qualquer pretexto.

Apesar de vários convites, nunca me apeteceu visitar a terra de todos os equívocos políticos e religiosos. Como é evidente, o testemunho da minha solidariedade para com o povo palestino nada tem a ver com juízos de valor sobre a actuação política, bélica ou ética dos dirigentes dos movimentos palestinos. Se assim fosse, dadas as divisões entre eles, este movimento (MPPM) não teria objecto. Para estar de bem com uns seria preciso estar de mal com outros. Esta solidariedade significa apoio e defesa de um povo vítima de uma história cada vez mais absurda. Como se trata de uma solidariedade com o povo palestino, não é hostilidade ao povo israelense. Pelo contrário, deve ser um caminho para o entendimento e amizade entre estes dois povos que só poderão conviver quando se converterem em agentes de paz.

Os dirigentes políticos, de um e outro lado, que fomentam, por razões de dominação, o ódio ao outro povo mais não fazem do que perpetuar erros do passado que só podem fazer cada vez mais vítimas. Um povo não é uma abstracção. É um tecido de laços. Agora, em concreto, dados os erros do passado, a vítima maior de toda essa história louca é o povo palestino.

As autoridades políticas, que deviam servir para corrigir erros do passado, continuam a impedir o futuro. Já sabemos que o poder político norte-americano apoia, de todas formas, o Estado de Israel. São, assim, ambos responsáveis pela violação dos direitos humanos. O povo palestino vive em regime de ocupação colonial. A Europa é a responsável desde o começo por esta tragédia. Deveria ser ela também a sentir-se responsável pela violação sistemática dos direitos humanos do povo palestino.

Este povo é constituído por árabes cristãos e muçulmanos. Os cristãos europeus que tiveram responsabilidades no anti-semitismo não podem resgatar-se desse crime apoiando, agora, ou sendo indiferentes à tragédia que vitima o povo palestino. Um erro nunca é corrigido pela adição de outro. Não é assim que se vence o anti-semitismo. Processos destes só o reforçam.

 

Nota: Quando fiz este guião de cronologia para alicerçar as considerações feitas, não podia adivinhar as consequências dos mísseis atirados da Faixa de Gaza sobre Israel nem a reacção bárbara e destruidora da aviação e exército israelenses. Se o Hamas se comporta como um movimento terrorista em defesa de um território ocupado, o Estado de Israel não se comporta como Estado de direito, mas como praticante de terrorismo de Estado. Não é assim que se pode caminhar para a constituição de dois Estados de direito, com relações estabelecidas pela justiça ao serviço da paz e da amizade entre os dois povos.

 

Intervenção proferida em 18 de Novembro de 2008 na Sessão Pública de Solidariedade com o Povo Palestino em Luta por uma Independência Soberana e uma Paz justa, organizada pelo MPPM na Casa do Alentejo, em Lisboa.

Frei Bento Domingos é Teólogo Dominicano e Vice-Presidente do MPPM

 
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