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MAHMUD DARWICH: UM TESTEMUNHO PESSOAL

 

Embaixadora Randa Nabulsi

 

Não consigo falar sobre o poeta Mahmud Darwich (1941-2008) como um ausente mas sim como alguém que já não estando presente está sempre junto de nós. A minha geração cresceu com os poemas de Mahmud Darwich e com eles também tem vindo a envelhecer.

Nós, os palestinos, conhecemos Mahmud Darwich após a ocupação israelita em 1967 e foi ele que, apesar dos obstáculos e horrores incontáveis da ocupação, deu ao nosso povo a possibilidade de conhecer a outra parte dos palestinos que resistiu na Palestina e ali ficou. O nosso poeta bem como Tawfiq Zyad (1932-1994) e Samih al Qasim (n. 1939) cantaram a Palestina. Logo no início da sua carreira literária houve dois poemas que marcaram para sempre a sua vida: foram “Bilhete de Identidade “ e “À minha mãe”. Este último relata as saudades do café e do pão da sua mãe, sentimentos partilhados por todos os palestinos combatentes ou refugiados. Estes são dois dos poemas que quase todos os palestinos sabem de cor.

Em 1964, Mahmud Darwich publicou Folhas de oliveira e, em 1966, Um amante da Palestina. Em 1967, publicou mais três livros: O fim da noite, Flores de sangue e Canções para a pátria. Em 1969, publicou Os pássaros morrem na Galileia e em 1970, A minha amada desperta do seu sono. Todas estas obras falam de temas como a nostalgia, a raiva, a resistência, o optimismo e o amor.

 

“Sobre um homem”

..

Expulsaram-no de todos os portos,

Levaram a sua amada pequena

E disseram–lhe: tu és refugiado.

Ó quem tem os olhos e as mãos a sangrar,

A noite desaparecera

Nem a prisão preventiva, nem as algemas

Nero morreu, mas Roma não

Continua a combater com os olhos

E se uma espiga morre

Crescem muitas outras no campo.

 

Na obra Flores de sangue, diz no poema “O Cantor de Sangue”

 

Kafar kasem

Voltei vivo da morte para cantar

Deixa-me emprestar a minha voz

A uma ferida

Sou o representante de uma ferida que não negoceia

Aprendi com o golpe de carrasco

Aprendi a andar em cima e a resistir

Ando... e ando e resisto.

 

Na obra Canções para a pátria:

 

“Pátria”

 

Penduraram-me nas lianas de uma palmeira

E enforcaram-me...

Nunca traíra a palmeira

Esta terra é minha e antigamente

Gostava do leite de camelo

A minha pátria não é uma história ou canção

Não é uma luz na face de jasmim

A raiva da minha pátria é sobre a tristeza

E sobre uma criança que quer uma festa e um beijo

E um velho chorando os seus filhos e o seu campo

Esta terra é a pele dos meus ossos

E meu coração voa sobre ela como se fosse uma abelha

Penduraram-me nas lianas de uma palmeira

E enforcaram-me...

Nunca traíra a palmeira.

 

Foi assim o estilo e o conteúdo das primeiras obras de Darwich; por isso, nós como povo vivendo sob ocupação, ficámos muito ligados a esta poesia que entrou facilmente nos corações dos palestinianos.

Conheci Mahmud Darwich no Cairo no início dos anos 70 quando ele regressava de Moscovo onde havia participado numa conferência e não estava nos seus melhores momentos, pois havia decidido não regressar a Haifa, depois de ali ter sido preso em 1961, 65 e 67. Na sua chegada ao Cairo, foi ali recebido por uma onda de cólera por parte dos seus admiradores e leitores que não lhe perdoaram aquela decisão. A sua reacção foi negativa e provocadora pois sentiu-se obrigado a defender-se contra a muita tinta que na altura correu contra ele de uma forma pública por parte de alguns intelectuais e isso constituiu uma fase decisiva na sua carreira literária em que acima de tudo quis provar que era um poeta e esse era o seu lugar.

A minha relação com Darwich teve lugar depois do meu casamento, pois o meu marido era amigo próximo dele. Apesar de ser um poeta já famoso, Mahmud Darwich era uma pessoa muito humilde, tímida, simpática e até com um certo ar de inocência como se fosse uma criança, mas era solitário e parecia até um tanto anti-social e instável, porém os seus leitores perdoavam-lhe a sua instabilidade. Darwich recusou também uma vez em Beirute ler o poema “Bilhete de Identidade”, situação que causou algum desconforto entre os seus leitores, mas ele insistiu nessa recusa, dado tratar-se de um poema que havia tido já a sua época.

Indicarei a seguir algumas das suas obras:

§       Em 1972 publicou Amo-te ou não te amo.

§       Em 1973 publicou Tentativa número 7.

§       Em 1975 publicou Tal é a sua imagem e eis o suicídio do amante e o poema lírico “Ahmad al-Zaatar”, sobre o massacre de Jabal al-Zaatar.

§       Em 1977 publicou Bodas.

§       Em 1983 publicou um poema que mas tarde veio a ser gravado: Elogio da sombra alta, historial da revolução palestina em Beirute.

§       Em 1984 publicou um poema que foi um requiem por dois dos seus amigos mais próximos assassinados pela Mossad: Majid Abu Charar, membro do comité central do Fatah em Roma e Ezzedine Qalaq, representante da OLP em Paris. Publicou também um poema com o título “Apenas mais um ano”, onde pede aos seus restantes amigos que não morram.

 

Meus amigos, não morram como têm o hábito de fazer

 Peço-vos o favor de não morrerem

Esperem mais ano, um ano apenas

Nada mais do que um ano

Talvez pudéssemos terminar uma discussão

Ou começar uma viagem.

 

§       Em 1986 publicou É uma canção... É uma canção. Foi a partir desta obra que se notou a força da prosa na sua poesia, pois a sua prosa continha uma grande componente poética. Foi nessa altura que o meu marido, por brincadeira, sugeriu a Mahmud Darwich que deixasse a poesia e se interessasse mais pela prosa. A obra que publicou a seguir continha uma dedicatória que dizia:”Amigo Issam as minhas desculpas por mais esta poesia”.Desde então a fronteira entre a prosa e a poesia ficou sempre uma questão em aberto. Em 1986 publicou ainda a obra Menos rosas, onde o poema “Nesta terra” teve grande destaque:

 

Nesta terra, há coisas que merecem viver: a hesitação de Abril, o cheiro do pão ao amanhecer, as opiniões de uma mulher acerca dos homens, os escritos de Ésquilo, o início do amor, a erva sobre uma pedra, as mães de pé sobre um fio de flauta e o medo que a recordação inspira aos conquistadores.

Nesta terra, há coisas que merecem viver: o fim de Setembro, uma mulher que entra nos quarenta, com todo o seu vigor, a hora de sol na prisão, as nuvens que imitam um bando de criaturas, as aclamações de um povo pelos que caminham, sorridentes, para a morte e o medo que as canções inspiram aos tiranos.

Nesta terra, há coisas que merecem viver: nesta terra está a dona da terra, mãe dos prelúdios e dos epílogos. Chamavam-lhe Palestina. Continua a chamar-se Palestina. Minha Dama, eu mereço, mereço viver, porque tu és a minha Dama.

 

§       Em 1990, publicou Vejo o que quero.

§       Em 1992, publicou Onze astros sobre o epílogo andaluz.

§       Em 1995, publicou Porque deixaste o cavalo só? e O leito da estrangeira.

§       Em 2000, publicou Mural, poema onde descreveu a sua experiência com a morte a seguir à primeira operação que sofreu.

§       Em 2002, publicou Estado de sítio, consagrado ao cerco à cidade de Ramallah durante a segunda Intifada, donde destacamos o seguinte poema:

 

[A um assassino]

Se tivesses contemplado o rosto da vítima,

E reflectido, ter-te-ias lembrado da tua mãe na câmara de gás,

Ter-te-ias libertado da sabedoria da espingarda

E terias mudado de opinião: Não é assim que se recupera a identidade!

O mártir avisa-me:

Não acredites nos seus “yu-yus”

Acredita no meu pai que olha para a minha fotografia com as lágrimas nos olhos:

Como trocaste os nossos papéis, meu filho

E partiste antes de mim?

Era a minha vez,

Era a minha vez!

 

[A outro assassino]

Se tivesses deixado o feto mais trinta dias,

As coisas teriam sido diferentes:

Acabada a ocupação, o recém-nascido esqueceria os dias do cerco,

Cresceria de boa saúde, tornar-se-ia um homem,

Estudaria com uma das tuas filhas

A história antiga da Ásia

E poderiam apaixonar-se.

Dar à luz uma filha (que seria judia de nascimento!).

Por isso, que fizeste?

Agora a tua filha está viúva

A tua neta é órfã

O que fizeste da tua família fugitiva?

Como pudeste matar três pombas com uma única bala?

 

§       Em 2004, publicou Não te desculpes com o que fizeste.

§       Em 2005, publicou Como flores da amendoeira ou mais longe.

§       Em 2006 publicou Na presença da ausência, cujo texto parece uma autobiografia no qual tentou identificar a sua sublime relação com poesia chegando a dizer “as letras têm fome da imagem e a imagem tem fome do sentido. As letras são jarras de porcelana vazias, enche-as então com a noite da primeira conquista. As letras são um apelo surdo às pedras disparadas nas ruas do sentido. Friccionando letra com letra nascerá uma estrela, então aproxima uma letra de outra, ouve o som da chuva, põe uma letra em cima de outra e encontra o seu nome escrito como se fosse uma escada com poucos degraus …”

§       Em 2008 publicou O traço da borboleta, uma obra mista entre poesia e prosa. Provavelmente o seu poema escrito após o golpe militar do Hamas em Gaza foi uma forma marcante de mostrar o choque de todos perante aquela situação:

 

Foi preciso termos caído de tão grande altura e ver o nosso sangue nas nossas mãos... para acreditarmos que não somos anjos, como costumamos pensar.

Foi também necessário termos mostrado os genitais a toda a gente para terem a certeza de que a nossa realidade já não é virgem.

 

Se Muhammad não tivesse sido o último dos profetas cada bando poderia ter tido o seu próprio profeta e cada companheiro a sua milícia!

Admirámos em Junho o 40º aniversário e se não conseguirmos encontrar alguém para nos derrubar novamente derrubar-nos-emos a nós mesmos com as nossas mãos, para não esquecer!

 

O estrangeiro e eu juntámos forças contra o meu primo. O meu primo e eu juntámos forças contra o meu irmão.

O meu xeque e eu juntámos forças contra mim mesmo.

Esta é a primeira lição do novo currículo da educação nacional.

 

Não me envergonho da minha identidade que está ainda em construção.

Mas envergonho-me de algumas coisas escritas nos Prolegómenos de Ibn Khaldun.

Tu a partir de agora és outra pessoa.

 

 

Podemos dizer com alguma segurança que a carreira literária de Mahmud Darwich, que atravessou cinco décadas, foi um percurso muito peculiar na criação poética no campo literário árabe, onde deixou a sua influência e genes – ele abriu caminhos e entrou em áreas que nenhum outro poeta árabe teria sido capaz de fazer, usou a língua de uma maneira flexível e por isso foi difícil aos que se lhe seguiram atingirem o seu nível. Falou em nome de todos e tem um público vasto que engloba o povo, os intelectuais e os políticos. Deixou imensas obras (mais de 40) as quais foram traduzidas para mais de 40 línguas e ficou conhecido como “a azeitona da Galileia”, “a azeitona da Palestina”, “a quinta cor da bandeira da Palestina” ou “o senhor das palavras”.

Esteve sempre ligado e fascinado pela rima como uma identidade clara da poesia. A sua obra O traço da borboleta foi uma tentativa de um professor para mostrar a ligação entre a poesia e a rima tal como a borboleta foi levada pelo vento.

Acompanhámos de perto a vida poética de Mahmud Darwich e quando ele publicava um poema num jornal todos nós o trocávamos via fax (no tempo em que não havia net). E antes de uma obra sair já muitos haviam reservado um exemplar ou mais, aguardando-a como se ela se tratasse de uma declaração politica ou da mensagem de um profeta. Ele nunca foi um poeta de elogios, apenas glorificou a Palestina, a resistência, a poesia e os poetas, o amor e cantou a paz, a vida e a humanidade. Foi uma pessoa de palavra livre e os seus sentimentos reflectem as suas convicções como poeta, pois demitiu-se da Organização de Libertação da palestina apesar da sua ligação a Arafat e de ter escrito Cerco dos louvores do mar, sobre a resistência da OLP em Beirute.

Quando fez a terceira operação ao coração, pensámos que venceria a morte como aconteceu da primeira e da segunda vez e que iria mais uma vez ironizar da morte; fora à capital francesa para uma consulta de rotina junto do seu médico pessoal, mas voltou com notícias alarmantes: o colesterol estava elevado e uma das artérias de tal modo alargada que poderia rebentar a qualquer momento. Ficou em dúvida a realização ou não de nova operação, pois seria perigoso a realização de uma terceira dado já ter sofrido duas intervenções e correr ainda o risco de poder ficar paralisado. Darwich aceitou ser operado mas na condição de não o deixarem vive caso ficasse nessa situação. O colesterol subiu, tendo fechado algumas artérias. Era um colesterol de um tipo raro, que cristalizava e rebentava as artérias; foi o que aconteceu após a segunda operação, dez anos atrás, quando os médicos foram obrigados a mantê-lo sob sedativos durante dois dias para conseguirem solucionar as várias tromboses que foi fazendo nas pernas e evitar novas tromboses. Mahmud Darwich ultrapassou com sucesso aquela fase e foi após essa experiência que escreveu o célebre Mural, no qual descreve os dois dias que viveu voando entre a vida e a morte e n’O traço da borboleta falou do último desafio coma morte escrevendo o seguinte:

 

Se me disserem: vais morrer esta noite

Que queres fazer do tempo que te resta?

Olho para o relógio

Bebo um sumo

E como uma maçã

Olho longamente para uma formiga que encontrou a sobrevivência

E olho novamente para o relógio

Ainda há tempo para fazer a barba

E que mais?

Penteio o cabelo

E deito no lixo o poema, este poema

Visto uma camisa italiana da última moda

E vou ao cemitério acompanhado por guitarras espanholas.

 

O médico francês recusou fazer-lhe a eutanásia caso a operação não corresse bem pois a lei francesa proíbe tal procedimento, pelo que o aconselhou a realizar a operação na Suíça ou na Holanda, países que permitem aquela prática.

Darwich regressou de Paris com “uma mina no seu coração” como ele próprio dizia muitas vezes, ironizando a morte como era seu hábito, mas sem esquecer a grande realidade de que o tempo lhe era já escasso e, como escreveu uma vez, a morte não gosta de esperar. Ele tinha consciência da sua importância na poesia árabe e palestina, de que não se pertencia a si mesmo e é por isso que termina o Mural dizendo “Eu não me pertenço”. Tinha consciência de que como poeta era um ser universal.

Ninguém na vida pode saber o que se passa na mente de uma pessoa que sabe que a morte é algo de certo mas não o momento em que chegará, especialmente depois da vida ter esgotado os milagres e as surpresas - aqui não há lugar para o equilíbrio entre o optimismo e o pessimismo, o que fica é apenas uma maneira de estar de pé, de olhos abertos olhando em frente com generosidade e dignidade, generosidade como o amor que oferece uma vida, dignidade como a do guerreiro quando olha nos olhos o seu inimigo, a morte, dizendo:

 

O tempo é zero. Não pensei no nascimento

Quando a morte me lançou na névoa

Não estava nem vivo nem morto

Não havia nem o nada nem a existência.

 

O que ele fez ao longo dos dois últimos anos tornou-se como que um longo hino, não um requiem mas uma defesa da vida e do amor, sempre com a Palestina presente.

O “senhor das palavras” enfrentou o seu destino com coragem e elegância, não pensou na morte nem em render-se, mas apenas no que poderia encontrar nos últimos quinze minutos perante o muro da morte, o muro da poesia, e o que a poesia tem de elogio da vida e o que a vida tem de luz que brilha sobre uma terra chamada Palestina, tal como a águia no alto do seu ninho sem dar importância à eternidade.

Nos seus últimos poemas escreveu sobre mulheres, vinho, pássaros, árvores e Haifa e sobre uma vida que estava a desaparecer mas que continuava verde até ao último momento.

Depois do seu regresso, Akram Haniya que acompanhou Mahmud Darwich na sua última viagem, disse palavras que saíam de um coração que chorava: “até ao último momento manteve a sua elegância e o seu brilho”.

Continuamos a sentir a falta do nosso Mahmud Darwich como pessoa, escritor e poeta e não nos cansamos de repetir que quando sentimos a traição de todos - como Mahmud Darwich dizia “Oh como estamos sozinhos”, quando em Beirute leu o poema “Ahmad al Zaatar” - e continuamos a glorificar “Ahmad al-Arabi”, sentimos e continuaremos a sentir a falta das suas novas obras, pois sempre nos surpreendeu pelo conteúdo e forma dos seus escritos, pois sempre conseguiu transmitir tudo o que passava na alma e na mente das pessoas, algo que nós jamais conseguiremos exprimir daquela forma bela e poética.

 

Intervenção proferida em 24 de Novembro de 2008 na sessão de homenagem a Mahmud Darwich realizada na Livraria Círculo das Letras, em Lisboa. Tradução do original árabe por Abdeljelil Larbi e Júlio de Magalhães.

A Embaixadora Randa Nabulsi é Delegada-Geral da Palestina em Portugal

 
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