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2ª SEMANA DA PALESTINA ENCERRA COM SESSÃO PÚBLICA DE SOLIDARIEDADE ORGANIZADA CONJUNTAMENTE POR MPPM E CPPC E COM PRESENÇA DE EMBAIXADORA RANDA NABULSI

A 2ª Semana da Palestina encerrou com uma Sessão Pública de Solidariedade que teve lugar, no dia 28 de Novembro, na sede da Confederação Portuguesa das Colectividades de Cultura, Recreio e Desporto. Com moderação de José Neves, Vice-Presidente o MPPM, intervieram: Frei Bento Domingues, também Vice-Presidente do MPPM; Luís Vicente, Vice-Presidente da Direcção Nacional do CPPC (Conselho Português para a Paz e Cooperação) e Embaixadora Randa Nabulsi, Delegada-Geral da Palestina.

Frei Bento Domingues partiu das declarações do delegado da Santa Sé, a uma reunião da ONU, em 2004 - "Uma análise realista desta situação demonstra-nos que há muita retórica acerca das actividades de promoção da Paz mas que há pouca vontade política na resolução das diferenças" - para apontar o caminho da reconciliação como o único possível. "Uma solidariedade que não favoreça a cooperação entre o povo Palestino e Israel apenas alarga o fosso e o muro. Há exemplos na História para provar que o caminho do perdão mútuo conduz à reconciliação e à Paz".

2ª Semana da Palestina - Sessão de SolidariedadeReconhecendo que a análise da situação tem que ter em conta a perspectiva das vítimas, e que os Palestinos são "a vítima das vítimas", Frei Bento considera que o povo de Israel também é vítima do seu próprio Estado belicista, auto-destruidor: "Vivem à base do que sofreram dos nazis. Isso não serve para ter compaixão dos outros, para ter sentido de amor dos outros, isso é uma cobertura para fazer aos outros o que lhes fizeram a eles. Isso é a destruição. Um holocausto serve para produzir holocaustos". Por isso, "é necessário divulgar muito mais, a nível mundial, todas as iniciativas, todas as pessoas, todas as organizações que pensam que os dois povos podem organizar-se de outro modo".

Referiu, depois, detalhadamente, o projecto da escritora inglesa Karen Armstrong, pelo qual recebeu o prémio TED em 2008 - a Carta da Compaixão. Com base na Regra de Ouro que diz existir em todas as religiões - "não faças aos outros o que não queres que te façam a ti" ou, na sua formulação positiva "faz aos outros o que desejas que os outros te façam" - Karen Armstrong lançou este projecto internacional que "convoca todos os homens e mulheres a colocar a compaixão no centro da moral e das religiões; a retomar o antigo princípio de que são ilegítimas todas as interpretações das escrituras religiosas que gerem violência, ódio ou desprezo; a transmitir aos jovens informações precisas e rigorosas acerca das outras tradições, religiões e culturas; a incentivar uma visão positiva da diversidade cultural e religiosa; a cultivar uma inteligência compassiva perante o conjunto de todos os seres humanos, mesmo aquele que consideramos nosso inimigos".

Luís Vicente começou por evocar a aprovação, em 29 de Novembro de 1947, da Resolução da ONU sobre a partilha da Palestina em dois Estado, um árabe e um judaico, para recordar que ela "constituiu a base legal para a independência do Estado de Israel e encerrou uma perigosa dissensão ideológica que ameaçava dividir a diáspora recém-despertada do horror do holocausto: a extrema-direita, da qual Netaniahu é herdeiro, apostava na conquista integral da Terra Santa, incluindo a antiga Transjordânia, enquanto os religiosos, salvo uma minoria não fundamentalista, eram absolutamente contrários à criação de um Estado judaico que não fosse proclamado pelo Messias, conforme as Escrituras".

Recordou, em seguida, a agressão israelita contra Gaza, iniciada em 27 de Dezembro de 2008, a qual se traduziu "num ignóbil massacre e uma catástrofe humanitária sem precedentes, a qual configura um crime contra um povo, contra todos nós; não foi uma guerra, foi um cerco, seguido de um massacre, um genocídio, com a conivência do governo dos EUA e com o governos da UE a fazer vista grossa". Lembrou o bombardeamento, pela força aérea israelita, de uma escola das Nações Unidas, em Gaza, que provocou 47 mortos e um número indeterminado de feridos, para questionar: "Também a ONU estava a esconder armamento na sua escola, como alegadamente o Hamas o tem feito nas suas escolas, hospitais e mesquitas? E as dezenas de civis refugiados nessa escola estariam a ser utilizadas como escudos humanos pela ONU?".

Traçando um paralelo com a situação dos judeus vítimas do nazismo, denuncia: "Toda a população civil palestina é alvo de um genocídio comandado pelo Governo de Israel. Se nós ignorarmos, quem é que vai gritar: ‘Gueto de Varsóvia nunca mais!' ‘Auschwitz e Birkenhau nunca mais!' ‘Treblinka nunca mais!' ‘Gaza nunca mais!' ‘Jerusalém Leste nunca mais!' ‘Cisjordânia, nunca mais!'?" A solução? "Que se cumpram as resoluções da Nações Unidas sobre o Médio Oriente, que se levante o bloqueio a Gaza, que se ponha fim à ocupação, que se libertem os milhares de presos políticos, que se desmantelem os colonatos, que se removam os muros de separação, que se estabeleça o Estado da Palestina com Jerusalém Leste como capital, que se deixem regressar os refugiados palestinos".

Prosseguiu Luís Vicente afirmando que "O Mundo não pode aceitar, no século XXI, que Israel construa um Muro do Apartheid três vezes maior que o de Berlim e duas vezes mais alto (...) uma cicatriz de ferro, arame farpado e betão que divide e fragmenta as terras palestinas separando os seus habitantes e impedindo a sua passagem", um Muro que deixa a Cisjordânia sem recursos hídricos e sem as principais terras agrícolas, isolando as comunidades e dificultando o acesso a escolas, universidades e até hospitais.

Depois de denunciar a política belicista de Israel, "um Estado que ocupa todo o território palestino, mesmo contra as resoluções da ONU, que tortura, que mata, que pilha, com o apoio das nações mais poderosas do Mundo, um Estado que usa a força fora o seu território, que se apodera dos recursos hídricos de outro povo", Luís Vicente terminou com um apelo "Que se juntem todos a nós, todos o palestinos de boa fé, todos os judeus de boa fé, que se juntem a nós neste grito de ‘Nunca mais!'"

Leia o texto integral da intervenção de Luís Vicente

A Embaixadora Randa Nabulsi começou por situar esta iniciativa da 2ª Semana da Palestina, organizada pelo MPPM, no contexto da decisão da Liga Árabe de designar Jerusalém como "Capital da Cultura Árabe 2009" e da subsequente proibição, por Israel, da realização, em Jerusalém, de qualquer iniciativa neste âmbito. Nestas condições, ao contrário do habitual, foram os Palestinos que se deslocaram às outras capitais árabes para mostrar a sua cultura e convidaram organizações internacionais e grupos de solidariedade a associar-se à iniciativa.

Randa Nabulsi lembrou, de seguida, que a Resolução da Partilha, de 1947, que o Dia Internacional de Solidariedade evoca, nunca foi cumprida, não obstante essa ter sido a condição imposta a Israel para a sua admissão na ONU. Historiando o longo processo de apropriação do território da Palestina por Israel, recordou que, na decisão da partilha, a ONU atribuía, aos 3% da população judaica, 52% do território; posteriormente, o Estado de Israel foi, unilateralmente, criado sobre 68% do território, incluindo toda a costa mediterrânica; presentemente, os planos israelitas prevêem que os Palestinos fiquem com 12% do território, repartido em guetos, separado uns dos outros, sem condições para uma vida social normal.

"Ouvi falar de tolerância. Falar de tolerância é muito nobre, mas não se pode ser tolerante sem haver justiça. Sem justiça não é possível acabar com o ódio. Não se pode pedir ao cordeiro que goste da pessoa que o está a matar. Não é possível pôr em igualdade a vítima e o agressor", disse Rand Nabulsi, para prosseguir demonstrando que os Palestinos são um povo amante da Paz, que só foi para a luta armada, sob a organização da OLP, quando percebeu que era a única forma de lutar contra a ocupação estrangeira. Apesar disso, logo que a conjuntura internacional o recomendou, procuraram, novamente, a via da paz e do diálogo. Houve uma altura em que isso pareceu possível: "A OLP reconheceu Israel como Estado independente e Israel reconheceu a OLP como representante do povo palestino. Havia lideranças políticas honestas - Yasser Arafat e Yitzhak Rabin. Falavam da "Paz dos Bravos" e tivemos a certeza de que era possível alcançá-la. Fomos a Madrid, a Oslo, a Sharm el-Sheikh. Yitzhak Rabin aceitou parar a construção dos colonatos. Isso custou-lhe a vida". Anos depois, Israel aprisionou Arafat na sua própria terra, em Ramalah, onde esteve doente a acabou por ser morto.

"Todos os Estados estão contra a ocupação, contra a anexação de Jerusalém, contra a construção do Muro, contra o roubo e pilhagem de terras. Todos os Estados estão a favor da Resolução 194 que prevê o regresso dos refugiados. Agora chegou o momento da verdade. Não há muitas escolhas: ou o Mundo assume as suas responsabilidades, ou estamos entregues à lei da selva!", alertou Randa Nabulsi, para deixar uma advertência: "Tivemos esperança com a Administração Obama, mas as suas decisões recentes deixaram toda a gente desiludida. E ao ver a paz a perder terreno, ao ver os homens de paz a perder a esperança, estamos a abrir a porta aos terroristas, aos fundamentalistas".

 

 
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