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OS POETAS PALESTINOS E A SUA POESIA ESTIVERAM NO PALCO D'«A BARRACA»2ª Semana da Palestina - Poesia n'A Barraca

A segunda iniciativa integrada na 2ª Semana da Palestina foi dedicada à "Poesia Palestina do Séc. XX".

Como destacou Júlio de Magalhães - responsável pela selecção e tradução dos poemas e ainda pelas notas biográficas dos seus autores - a poesia foi fundamental na construção da identidade árabe ao longo dos séculos. Esta identidade construiu-se em torno da língua árabe, a língua do Corão, e na expansão do mundo árabe a poesia teve um papel primordial.

Quando, no século XX, há um movimento político de ressurgimento árabe na sequência da luta contra o 2ª Semana da Palestina - Poesia - Maria do Céu GuerraImpério Otomano, instigada pelas potências ocidentais, que resulta na criação de Estados com fronteiras artificialmente criadas, há também um renascimento cultural, que se inicia no Egipto e se alarga a todo o mundo árabe. Com a criação dos novos Estados, atenua-se o conceito de poesia árabe e começam a surgir as variantes nacionais. É nesse contexto que surge uma poesia de matriz palestina.

Com poemas ditos por Maria do Céu Guerra e João D'Ávila, foram evocados os seguintes poetas nascidos na Palestina: Fadwa Tuqan ("Basta-me", "O Dilúvio e a Árvore"); Tawfiq Zayyad ("Aqui 2ª Semana da Palestina - Poesia - João D'Ávilaficaremos"); Samih al-Qasim ("Morcegos"; "Cinzas"); May Sayigh ("Partida"); Murid Barghuty ("Certeza"; "Excepção"); Ahmed Dahbur ("Novas sugestões"; "A Morte do sapateiro"); Hanan Ashrawi ("Morte por enterramento"); Hanan Awwad ("É tempo do cavaleiro triunfar"; "Últimas palavras dos mártires na Palestina"); Ghassan Zaqtan ("Escuridão"; "Um espelho"; "Um incidente") e Mahmud Darwich ("À minha mãe"; "Mural").

O MPPM editou a versão integral dos poemas e textos apresentados nesta sessão (Documentos MPPM nº 5 - Poesia Palestina do Século XX).

Dessa edição extraímos três poetas e outros tantos poemas.

 

SAMIH AL-QASIM

É um dos mais famosos poetas palestinianos. Filho de uma família druza, nasceu na Galileia em 1939, foi educado em Rama e Nazareth e exerceu actividade docente numa escola pública israelita de que foi demitido devido às suas posições políticas. Foi várias vezes preso em Israel pela sua militância a favor da causa palestiniana. Trabalhou como editor nos jornais Ghad e Ittihad e publicou vários livros de poesia, alguns dos quais se encontram traduzidos em inglês, e muitos dos seus poemas foram musicados. A sua primeira colectânea intitula-se Procissões do Sol (1958). Outras colectâneas reflectem a sua contínua experimentação da linguagem e da tonalidade: Amo-te como o Desejo de Morte (1980), O Lado Escuro da Maçã, o Lado Brilhante do Coração (1981), As Dimensões do Espírito (1983), Persona Non Grata (1986).

MORCEGOS

Morcegos na minha janela

Sugam as minhas palavras

Morcegos à entrada da minha casa

Atrás dos jornais, pelos cantos

Seguem os meus passos,

Observando todos os movimentos da minha cabeça.

 

Por trás da cadeira, os morcegos observam-me

Seguem-me nas ruas

Espreitam sobre os meus livros

Ou sobre as pernas das raparigas...

Vigiam-me, vigiam-me sempre.

 

Há morcegos na varanda dos meus vizinhos

E aparelhos escondidos nas paredes.

Agora os morcegos

Estão à beira do suicídio.

 

Estou escavando uma estrada para a luz do dia.

 

MURID BARGHUTY

É um notável poeta palestiniano. Nasceu em 1944 na aldeia de Deir Ghassani e viveu a maior parte da sua vida na Diáspora. Trabalhou como professor no Kuwait durante quatro anos e na Rádio Palestina do Cairo, deixando o Egipto em 1979 após a assinatura do Tratado de Paz entre o Egipto e Israel. Viveu depois em Budapeste como representante da OLP e reside actualmente no Cairo. A sua obra iniciou-se com poemas patrióticos tendo evoluído depois para uma sensibilidade modernista e produzido algumas das mais intensas experiências poéticas entre os poetas árabes da sua geração. Foi galardoado em 1997 com o Prémio de Literatura Naguib Mahfuz da Universidade Americana do Cairo pelo seu primeiro ensaio Ra'ayt Ramallah (Eu vi Ramallah) sobre o seu regresso à Palestina após os anos de exílio, livro que foi traduzido em inglês pela AUC.

EXCEPÇÃO

Todos chegam

Rio e comboio

Som e barco

Luz e cartas

Os telegramas de pêsames

Os convites para jantar

A mala diplomática

A nave espacial

Todos chegam, todos excepto os meus passos em direcção ao meu próprio país...

 

HANAN ASHRAWI

Nasceu em Nablus em 1946, filha de uma família cristã, o pai, um médico ortodoxo, e um dos fundadores da OLP, e a mãe, uma feminista anglicana. Licenciou-se em Literatura na Universidade Americana de Beirute, mas depois da Guerra dos Seis Dias foi impedida de regressar à Cisjordânia. Partiu então para os Estados Unidos onde se doutorou em Literatura Medieval e Comparada pela Universidade de Virgínia. Só pôde regressar à sua terra em 1973. Estabeleceu o Departamento de Inglês na Universidade de Birzeit na Cisjordânia que dirigiu de 1973 a 1978 e de 1981 a 1984. De 1986 a 1990 foi directora da Faculdade de Letras da Universidade. De 1991 a 1993 foi porta-voz oficial da Delegação Palestiniana para o Processo de Paz no Médio Oriente e de 1993 a 1995 foi responsável pelo Comité Preparatório da Comissão Independente Palestiniana para os Direitos dos Cidadãos de Jerusalém. Em 1996 foi eleita para o Conselho Legislativo Palestiniano. Ainda em 1996 foi nomeada ministra do Ensino Superior e da Investigação, lugar de que resignou em 1998 por discordâncias com Yasser Arafat. Em 1998 fundou MIFTAH-Iniciativa Palestiniana para a Promoção da Diálogo Global e a Democracia. É autora de diversas obras sobre literatura e, pelas suas actividades em prol da democracia e dos direitos humanos, recebeu numerosos prémios.

Em Fevereiro de 1988 soldados israelitas enterraram vivos quatro jovens - Isam Shafiq Ishtayyeh, Abdel-Latif Mahmud Ishtayyeh, Muhsin Hamdan e Mustafa Abdel-Majid Hamdan - da aldeia de Salim, perto de Nablus. Depois dos soldados partirem, os aldeões escavaram as sepulturas e conseguiram resgatá-los com vida.

MORTE POR ENTERRAMENTO

Este local não é

Próprio para plantar.

Aqui a terra é

Dura, seca, irritante -

Agulhas de folhas mortas

Arranham.

Fecho os olhos, o pó

Sufoca-me a garganta,

Nunca pensei que a terra

Pudesse ser tão pesada,

Talvez se eu

Levantar um braço

Alguém venha atravessar

Um dia a minha sepultura e,

Como nas noites dos filmes de terror,

Veja uma mão sem vida, uma palma aberta.

Dedos meio enrolados...

E grite.

 

Eu não morri nesse dia -

Outra coisa sucedeu

E ainda permanece

Na sepultura pútrida

Fermentando o conhecimento das trevas.

 
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