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MAHMUD DARWICH - POETA E RESISTENTE

O poeta Mahmud Darwich é uma das figuras mais notáveis da Palestina contemporânea. Personagem singular, Darwich conciliou a actividade intelectual (além de poeta foi prosador, ensaísta, jornalista) com a actividade de resistente contra a ocupação israelita, tendo-se tornado uma referência para o Médio Oriente. A sua poesia ultrapassou as fronteiras da geografia e tornou-se conhecida em todo o mundo árabe, que lhe conhece os versos e os recita de cor. A sua voz ergueu-se sempre, tanto através da escrita como na arena política, em defesa de uma Palestina independente, num combate em que lutou até aos seus últimos dias. Darwich, foi, de facto, durante a segunda metade do século XX, a voz e a consciência do Povo Palestino e o seu nome ficará indelevelmente registado na história da literatura e na história política, da Palestina e do Mundo.

Mahmud DarwichMahmud Darwich nasceu em Al-Birwa, uma aldeia da Galileia perto de São João d'Acre, então território sob mandato britânico, em 13 de Março de 1941. Após a criação do Estado de Israel, em 1948, a sua aldeia foi invadida e a família fugiu para o Líbano, onde permaneceu um ano. Quando regressaram a Israel, descobriram que a aldeia fora completamente arrasada e substituída por um colonato judaico. Instalaram-se, então em Deir Al-Assad, onde Mahmud frequentou a escola primária, tendo partido mais tarde para Haifa.

Publica o seu primeiro livro de poesia aos 19 anos: Asâfîr bilâ ajniha ("Pássaros sem asas"). Em 1964 começa a ser reconhecido a nível nacional, e mesmo internacional, como uma voz da resistência palestina com o livro Awrâq al-zaytûn ("Folhas de oliveira"), que inclui o célebre poema "Bilhete de identidade". Continua a escrever poemas e artigos em jornais e revistas, é preso várias vezes pelos seus escritos e actividades políticas e, em 1970, parte para a União Soviética, onde frequenta a Universidade de Moscovo. Em 1971, trabalha no jornal Al-Ahram, no Cairo e, em 1973, dirige, em Beirute, a revista Shu'un Filistiniyya (Assuntos Palestinos).

Ainda em 1973, Darwich adere à Organização de Libertação da Palestina (OLP), sendo, por isso, proibido de voltar a entrar em Israel. Em 1982 abandona Beirute, em consequência do bombardeamento israelita e exila-se no Cairo, depois em Tunis e por fim em Paris. Em 1987 é eleito para o comité executivo da OLP mas, na sequência dos Acordos de Oslo (1993), e como forma de protesto contra a atitude da OLP, que considerou demasiado conciliatória nas negociações, abandona a Organização. Finalmente, em 1996, Darwich é autorizado por Israel a instalar-se em Ramallah (Cisjordânia), onde se encontra o governo de Yasser Arafat. Com o cerco e ataque das tropas sionistas de Ariel Sharon a Ramallah, em 2002, muda-se para Amman, na Jordânia, embora volte algumas vezes aos Territórios Ocupados e a Israel. Em 2007, assiste, em Haifa, a uma sessão em sua honra organizada no Monte Carmelo pelo partido israelita Hadash (Frente Democrática para a Paz e a Igualdade) e pela revista Masharaf; aí discursa e lê poesia para milhares de pessoas. Doente cardíaco há longos anos, Darwich, realiza a sua última intervenção pública em 1 de Julho de 2008, em Ramallah, lendo poemas para uma vastíssima audiência, numa sessão que foi considerada a sua despedida dos palestinos.

Mahmud Darwich morreu em 9 de Agosto de 2008, com 67 anos, num hospital de Houston, nos Estados Unidos, na sequência de complicações decorrentes de uma delicada intervenção cirúrgica ao coração. Foi sepultado em Ramallah, junto ao Palácio da Cultura.

A obra de Darwich, composta por mais de 30 livros de poesia e de prosa, encontra-se traduzida em cerca de 40 línguas, e foi interpretada por diversos cantores, como o libanês Marcel Khalifa, que musicou e cantou vários dos seus poemas, entre os quais o famoso "À minha mãe". No cinema, devem assinalar-se dois documentários: "Mahmoud Darwich, et la terre comme la langue", realizado em 1997 para a televisão francesa por Simone Bitton e Elias Sanbar e "Écrivains des frontières", realizado em 2004 por Samir Abdallah e José Reynes. Neste momento, está a ser produzido um filme sobre Darwich, da autoria de Nasri Hajjaj, em que o realizador recolhe depoimentos de diversas figuras da vida cultural internacional que privaram com o poeta, e que será estreado no primeiro aniversário da sua morte.

A terminar, duas afirmações de Mahmud Darwich:

- "Triunfámos sobre o plano para nos expulsarem da História"

- "Um povo sem poesia é um povo vencido"

[Júlio de Magalhães]

 

TRÊS POEMAS DE MAHMUD DARWICH

 

 

BILHETE DE IDENTIDADE

 

Toma nota!

Sou árabe

O número do meu bilhete de identidade: cinquenta mil

Número de filhos: oito

E o nono... chegará depois do verão!

Será que ficas irritado?

 

Toma nota!

Sou árabe

Trabalho numa pedreira com os meus companheiros de fadiga

E tenho oito filhos

O seu pedaço de pão

As suas roupas, os seus cadernos

Arranco-os dos rochedos...

E não venho mendigar à tua porta

Nem me encolho no átrio do teu palácio.

Será que ficas irritado?

 

Toma nota!

Sou árabe

Sou o meu nome próprio - sem apelido

Infinitamente paciente num país onde todos

Vivem sobre as brasas da raiva.

As minhas raízes...

Foram lançadas antes do nascimento do tempo

Antes da efusão do que é duradouro

Antes do cipreste e da oliveira

Antes da eclosão da erva

O meu pai... é de uma família de lavradores

Nada tem a ver com as pessoas notáveis

O meu avô era camponês - um ser

Sem valor - nem ascendência.

A minha casa, uma cabana de guarda

Feita de troncos e ramos

Eis o que eu sou - Agrada-te?

Sou o meu nome próprio - sem apelido!

 

Toma nota!

Sou árabe

Os meus cabelos... da cor do carvão

Os meus olhos... da cor do café

Sinais particulares:

Na cabeça uma kufia com o cordão bem apertado

E a palma da minha mão é dura como uma pedra

... esfola quem a aperta

A minha morada:

Sou de uma aldeia isolada...

Onde as ruas já não têm nomes

E todos os homens... trabalham no campo e na pedreira.

Será que ficas irritado?

 

Toma nota!

Sou árabe

Tu saqueaste as vinhas dos meus pais

E a terra que eu cultivava

Eu e os meus filhos

Levaste-nos tudo excepto

Estas rochas

Para a sobrevivência dos meus netos

Mas o vosso governo vai também apoderar-se delas

... ao que dizem!

 

... Então

 

Toma nota!

Ao alto da primeira página

Eu não odeio os homens

E não ataco ninguém mas

Se tiver fome

Comerei a carne de quem violou os meus direitos

Cuidado! Cuidado

Com a minha fome e com a minha raiva!

 

(1964)

[Tradução de Júlio de Magalhães]

 

 

À MINHA MÃE

 

Tenho saudades do pão da minha mãe,

Do café da minha mãe,

Do carinho da minha mãe...

Estou a crescer,

De dia para dia,

E amo a vida, porque

Se morresse,

Teria vergonha das lágrimas da minha mãe!

 

Se um dia voltar, faz de mim

Uma sombrinha para as tuas pálpebras.

Cobre os meus ossos com a erva

Baptizada sob os teus pés inocentes.

Ata-me

Com uma mecha dos teus cabelos,

Um fio caído da orla do teu vestido...

E serei, talvez, um deus,

Talvez um deus,

Se tocar o teu coração!

 

Se voltar, esconde-me,

Lenha, na tua lareira.

E pendura-me,

Corda da roupa, no terraço da tua casa.

Falta-me o ânimo

Sem a tua oração diária.

Envelheci. Faz renascer as estrelas da infância

E partilharei com os filhos das aves,

O caminho do regresso...

Ao ninho onde me esperas!

 

(1966)

[Tradução de Júlio de Magalhães]

 

 

ESTRANGEIRO NUMA CIDADE DISTANTE

 

Quando eu era pequeno

E belo,

A rosa era a minha morada,

E as fontes eram os meus mares.

A rosa tornou-se ferida

E as fontes, sede.

- Mudaste muito?

- Não mudei muito.

Quando voltarmos à nossa casa

Como o vento,

Olha para a minha testa.

Verás que as rosas são agora palmeiras,

E as fontes, suor,

E voltarás a encontrar-me, como eu era,

Pequeno

E belo...

 

(1969)

[Tradução de Júlio de Magalhães]

 
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