Home Cultura Palestina A Cultura Palestina: Uma Cultura Árabe, Milenar, Resistente e Humanista
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A cultura palestina: uma cultura árabe, milenária, resistente e humanista1

Adel Yussef Sidarus2

adel sidarusPara introduzir-vos a esta sessão cultural sobre a Palestina, falarei hoje da cultura palestina enquanto:

a) Cultura árabe, ao mesmo tempo particular e universal,

b) Cultura ligada ao território, com a sua milenária e diversificada ocupação humana,

c) Cultura militante e resistente, ao mesmo tempo que profundamente humanista.

Cultura árabe

A palavra árabe hoje é polivalente.

Para além do significado étnico relativo às populações da Península arábica, ou de origem nesse grande deserto milenar..., árabe é um qualquer habitante dos Países árabes, ou que se reconhecem como tais. Países que vão do Atlântico (Mauritânia, Povo Sahrawi, Marrocos) até à Mesopotâmia (Iraque), e da Síria, ao Norte, até ao Sudão (do Norte) e à Somália, ao Sul.

Mas árabe diz-se sobretudo de uma língua que funciona - para glosar Fernando Pessoa - como "mátria": uma língua escrita comum, largamente afiliada à língua corânica, mas também impregnada pela extraordinária civilização árabo-islâmica, velha de um milénio e meio e que abrangeu um espaço geo-humano que vai da China até ao Atlântico. Uma "civilização intermédia" por excelência na história da humanidade, ligando o Oriente ao Ocidente, enriquecida pelos contributos de tantos povos e etnias: árabes, siro-arameus, persas, arménios, curdos, indianos, turcos, mongóis, malaios, chineses etc., a Oriente - e greco-romanos, egípcios ou coptas, berberes, africanos e euro-ibéricos, a Ocidente.

Esta civilização e cultura potencia uma carga universal e universalista ímpar, mesmo que do ponto de vista da actualidade (ou da "curta história" dos últimos dois-três séculos versus a "longa história" de sete milénios de civilizações com escrita...), a impressão não seja tão evidente...

Por outro lado, árabe - deve-se frisar - não é sinónimo de muçulmano (eu sou árabe cristão...). Houve, de facto, tribos árabes cristãs e judias na Península arábica, nos alvores do islamismo - na península mesmo, assim como entre os beduínos estabelecidos nas zonas fronteiriças dos impérios romano e persa. De resto, essa "Gente do Livro", assim designada no sagrado texto corânico, contribuiu bastante no processo de desenvolvimento da nova religião.

Ademais, o contributo dos judeus árabes ou arabizados, e dos cristãos árabes, sírios, coptas ou mesmo gregos do Mediterrâneo oriental, foi determinante para a emergência da filosofia e ciência dita "árabe" (por ser escrita na língua árabe) ou "islâmica" (por ter florescido no quadro do antigo império islâmico). Filosofia e ciência, como sabemos, a que tanto deve a cultura europeia medieval e até algumas vertentes do Renascimento.

Não esqueçamos a esse propósito o esplendor da civilização e da cultura de al-Ândalus, e do Garbe andaluz: o território hoje português, sobretudo na sua parte meridional. Temos aí, enquanto portugueses, um património árabe comum com os palestinos: na língua e na poesia, assim como nas artes e nos ofícios, para não falar doutras vertentes como a música ou a culinária. No auge desse ciclo de seis até nove séculos, as três religiões conviveram com fecundidade. Lembro, rapidamente, os cristãos "moçárabes" (quer dizer: "arabizados") como eles próprios se auto-denominavam. Ou o facto, hoje ocultado..., do renascimento da língua e cultura hebraicas nos meios judaicos "sefarditas" (Sefarad = Hispânia/al-Ândalus), precisamente nesse quadro favorável.

E este convívio entre os adeptos da "Fé abrâmica" apenas começou a periclitar quando os reinos cristãos nortenhos, cobiçando as riquezas das regiões meridionais e acicatados por francos e cruzados..., iniciaram a conquista dessas terras e causaram a reacção das relativamente frustres e intolerantes tribos berberes do outro lado do Estreito.

Já agora, vamos ouvir esta noite um pouco de poesia palestina! Não esqueceremos que foi escrita na mesma língua e seiva que as dos poetas luso-árabes, como al-Mútamid ibn Abbád, o rei-poeta de Silves (nascido em Beja e futuro rei da grande Taifa de Sevilha), ou o seu fiel companheiro Ibn Ammar de S. Brás de Alportel; como Ibn Sara de Santarém, Ibn al-Nuqana de Alcabideche (Sintra) ou Ibn Abdún de Évora, para citar apenas alguns dos nomes que chegaram a brilhar no céu andaluz.

Cultura ligada à terra e ao território

No quadro geral dos países árabes que, como vimos, vão do Atlântico até à Mesopotâmia e para os quais a língua árabe funciona como "mátria", em analogia aos Países lusófonos..., a língua escrita é pois comum, largamente tributária da língua do sagrado Corão. Contudo, escrevemos uma língua que não é falada e falamos uma língua que não é escrita: segundo as várias "pátrias", esta língua é particular, uma variante vulgar ou melhor dialectal.

Esses dialectos se desenvolveram numa relação íntima com os registos etno-linguísticos anteriores ou novos, conforme os povos que iam chegando: conquistadores, colonizadores, ou simples imigrantes e refugiados. No caso da Palestina, devemos mencionar os primeiros povos cananeus e filisteus (que deram o nome à terra), mais tarde os hebreus, seroaremos, naba teus e árabes (todos povos "semitas"), mais os persas, gregos, romanos, cruzados, curdos, turcos e, nos tempos modernos, ingleses, russos e outros.

Todos esses povos deixaram traços na cultura palestina de língua árabe, tanto na erudita (literatura, novelística, poesia...), como na popular ou oral (poesia, contos, provérbios...), para não falar da cultura material: artes e ofícios, agricultura e arquitectura, etc.

Por outro lado, temos o meio-ambiente próprio: o clima, o solo, os cursos de água, o mar, as montanhas, a fauna e a flora - tudo isso tem um impacto sobre a cultura, e irão notar isso em alguns dos poemas que serão declamados.

No caso em apreço, para lá dos condicionamentos externos, a dinâmica populacional, inclusive a terrível mas riquíssima diáspora originada na tragédia das espoliações, expulsões e guerras contínuas, fez do povo palestino um dos mais cultos e cosmopolitas entre os povos árabes, com uma elevadíssima taxa de graduados universitários. O mor da gente que foi estudar fora, em outros países árabes ou euro-americanos, ou ainda em países soviéticos, voltaram para a sua terra ou mantiveram uma forte ligação com ela. A figura internacional de Edward Saïd é emblemática a esse respeito. Assim como o é o poeta nacional Mahmoud Darwish, que viveu no Estado de Israel até ser expulso, ou ainda o seu compatriota o romancista Emile Habib (mais uma destacada figura cristã). Acrescente-se a isso o facto de hoje a entidade palestina, incluindo a sua dimensão cultural e literária, se exprimir fora dos limites estritos da Palestina histórica ou geopolítica actual: apenas metade do palestinos vivem de facto nela: temos mais um milhão e meio em Israel e vários milhões entre a Jordânia, o Líbano, a Síria, o Egipto e os países do Golfo, para falar apenas do Médio Oriente.

Outra particularidade é a taxa elevada de mulheres empenhadas na educação, inclusive superior, na literatura e na poesia... - em proporções maiores que noutros horizontes árabes.

Cultura militante e resistente

Infelizmente, esta ligação visceral à terra não é, desde há mais de sessenta anos, pacífica e natural. Tem que ser conquistada a todo momento, conquistada ou reconquistada, recuperada e mantida com determinação e força interior e solidária, numa luta diária, sempre a recompor-se...

De facto, temos que admirar todos o Povo Palestino por ter conseguido manter, através de décadas de sofrimento, de perseguição e de exílio, a sua identidade própria - tantas vezes sonegada - e sua fidelidade à terra-mãe - sistematicamente ameaçada, espoliada, destruída e ocupada.

Tentem imaginar, só, o que é viver gerações a fio em campos de refugiados, se não de concentração ou de prisão aberta (Gaza...), ou em exílio, cortado dos seus genitores, da sua fratria, da sua família no sentido lato (a grande família árabe ou oriental...). Não se admire pois quanto isso possa gerar de violência latente, violência globalmente contida e interiorizada, mas que rebenta esporadicamente, quando o cordão se aperta, a dignidade é espezinhada, o direito à própria existência, negado.

E contudo..., a força de viver dignamente o seu destino, de manter-se ligado à corrente humana, tem levado o Povo Palestino a uma criatividade extraordinária: na edução contínua, na poesia e na literatura, na arte de viver e sobreviver. É assim que podemos apreciar e contemplar os frutos da cultura palestina, da sua poesia, literatura, cinema, música, danças... Uma cultura profundamente humanista e até universal, que deve funcionar como catarse para a cultura árabe em crise e que nos toca a todos e todas:

Guevara, aproxima-se.

O revolucionário de rosto tisnado

Desencadeia a Intifada.

Guevara beija-lhe a testa

E vislumbra leões invencíveis.

[Hanan Awad, escritora e universitária, nascida em Jerusalém em 1951. Fundou em 1988 a Liga Internacional das Mulheres para a Paz e a Liberdade]


1 Esta comunicação foi lida no Teatro Municipal de Almada, em 21 de Novembro de 2012, no âmbito das Jornadas de Solidariedade com a Palestina - 2012

2 Adel Yussef Sidarus é professor universitário jubilado e membro da Direcção Nacional do MPPM

 
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